sábado, outubro 21, 2006

Será fácil culpar mais um Severino!

Ao ler e tomar conhecimento de fatos, além das matérias dos jornais de hoje sobre a morte na Obra do Centro de Convenções, na Avenida Alberto Lamego, não só na condição de engenheiro da área de segurança do trabalho, mas como observador de que as condições de que a "pressa política" pode levar ao trabalho em 24 horas e a acidentes lamentáveis como este, escrevi o texto abaixo que é fruto mais de desabafo do que vontade de expressão. Será fácil culpar mais um Severino Um nome conhecido na construção civil, um setor já distinguido pelos altos índices de acidentes. Noite de quinta para sexta-feira, por volta de uma e meia, muito vento e muita chuva, no final da nossa conhecida rua Sete, agora, avenida Alberto Lamego. Uma obra de construção como qualquer outra. Severino Costa, 40 anos, um operador de gruas e guindastes percebendo as condições adversas teria se recusado a subir para operar a máquina. Já estava acostumado ao trabalho noturno na obra, porém, mesmo com o pouco de treinamento que teve, sabia que não era recomendável a operação naquelas circunstâncias. Severino como a maioria dos seus companheiros, não estudou o suficiente para fazer contas que pudesse justificar aos seus superiores, a suspensão do trabalho, por considerar que os fortes ventos equivaleriam a um tanto significativo de peso que diminuiria o valor máximo permitido a ser içado e transportado pelo equipamento. Severino não sabe, mas, a baixa escolaridade é um dos fatores que se atribui para que o setor seja o campeão em acidentes do trabalho no país. Apesar disso, Severino sempre soube que os riscos do setor são ampliados pelo fato de ser um trabalho executado, em ambiente externo sujeito a sol, chuvas, ventos e trovoadas. Severino não sabia, mas, percebia que o fato das obras terem hoje, um rodízio de empresas terceirizadas que chegam e saem das obras, conforme concluem seus trabalhos, torna muitas vezes, o trabalho ainda mais arriscado, pela falta de conhecimento e comunicação entre as pessoas. Severino no meio da segunda hora da madrugada de sexta-feira, também sentiu a pressão que o prazo de conclusão de uma obra pública exerce, até sobre o bom senso das pessoas. Severino, em meio a tudo isso, subiu ao alto da cabine do equipamento a mais de 20 metros de altura com medos e pressentimentos. Lembrou da mulher e dos filhos que deixou no Rio de Janeiro. O tremor que teve, Severino atribuiu ao frio. Começou a operar a grua até sentir o tremor na cabine e daí por diante Severino: “flutuou no ar como se fosse um príncipe e se acabou no chão feito um pacote bêbado”. O engenheiro da obra disse aos jornais: “Vamos avaliar todas as hipóteses. Não descartamos também a última possibilidade, de ter ocorrido uma falha de Severino”. Severino sabia que ajudava a construir um espaço que chamam de Centro de Convenções, onde festas e manifestações artísticas acontecerão ao longo de décadas. Severino só não esperava encerrar ali, a arte do seu ofício e a festa que até então era a sua vida. Diante dos fatos e circunstâncias, mais uma vez, será fácil culpar um Severino. Como Chico Buarque, na música Construção, também lhe digo: “Deus lhe pague!”

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