segunda-feira, maio 11, 2026

A empatia como mercadoria escassa: habilidades sociais e as contradições do trabalho com mais IA

O avanço da inovação tecnológica na área da Inteligência Artificial (IA) apresenta vários paradoxos. No geral, observa-se uma tendência de redução de empregos em áreas cognitivas — e não apenas em tarefas físicas e manuais, como ocorreu na automação tradicional. Atualmente, nota-se que essa redução de tarefas no trabalho cognitivo vem acompanhada por demandas que exigem intelecto e maior qualificação. Esse processo complexo e muitas vezes dúbio exige observações e pesquisas mais profundas.

Porém, o paradoxo reside em outro ponto: os serviços cognitivos estão exigindo, cada vez mais, trabalhadores com maior capacidade de intervenção, relações interpessoais e, especialmente, habilidades sociais. Contraditoriamente, as transformações digitais têm empurrado os indivíduos para uma vida social mais pobre, onde preponderam o isolamento e o individualismo.

Surge, então, uma incongruência entre o que é proporcionado pela tecnologia (o uso acentuado de telas) e o que o trabalho sob o domínio digital exige na vida laboral. É notório que a comunicação e a empatia interpessoal estão sendo reduzidas, enquanto a estranheza social aumenta. Não é uma equação simples de resolver, embora as gestões de pessoas das companhias pensem o contrário.

A questão é estrutural: na contemporaneidade, já vemos a ampliação do uso de robôs humanoides (IA corporificada). A interação homem-máquina — um fenômeno sociotécnico — cresce em uma direção que tende a reduzir e afastar, ainda mais, a interação social entre humanos. Se as relações se reduzem, a empatia se abrevia e as habilidades sociais se esvanecem.

No mundo capitalista, a lógica vigente alterna entre a escassez e a fartura. Assim, se a empatia e as habilidades sociais se tornam escassas, logo ganham mais valor no mercado de trabalho. Isso talvez já esteja ocorrendo no universo online, no uso sistemático de modelos de linguagem e chatbots, sem que seja plenamente percebido.

À medida que vêm à tona casos de grande interação entre sujeitos e IAs — inclusive para interlocuções sobre o psiquismo —, o isolamento e a estranheza social tendem a aumentar, gerando ainda mais demanda por habilidades sociais humanas. Isso explica, em parte, a busca crescente por psicólogos e terapias como formas de suportar a perda do convívio social, um dos maiores bens da humanidade.

Não seria surpresa se, sob a hegemonia financeira contemporânea, as habilidades sociais passassem a ser chamadas de "ativos". Faltará apenas criarem uma inovação para vendê-las como commodities, ignorando que elas não existem artificialmente, pois são inerentes ao sujeito humano.

quinta-feira, maio 07, 2026

Dataficação: questão-chave da soberania cibernética e superação da dependência digital

Entender o fenômeno da dataficação é o primeiro passo para se compreender e almejar um avanço na formulação de políticas que tenha como objetivo a soberania cibernética, a superação da dependência e do colonialismo digital, considerando tudo aquilo que atualmente se desenrola de forma acelerada em relação à internet, ao uso de dados, algoritmos e plataformização, em diferentes partes do mundo.

A dataficação se situa num degrau acima da digitalização como etapa contemporânea da reestruturação produtiva. A transformação digital (dataficação) é um dos vértices do tripé do capitalismo contemporâneo que tem nas outras duas bases: a dominância e a hegemonia financeira (assetização e rentismo); e no outro vértice: a lógica da racionalidade neoliberal.  

É importante destacar que o desenvolvimento da dataficação tem distinções no tempo, no espaço e nas condições socioeconômicas e políticas em que são implantadas e desenvolvidas, sendo desigual, mesmo que combinada, sobre o que vem sendo instituído mundo afora. De forma em especial os processos desenvolvidos nos EUA e na China.

A dataficação é a grande base das grandes transformações que estamos assistindo na atualidade. Compreender o papel e a importância dos dados no contexto da transformação digital e do processo de plataformização no presente não é simples para a maioria das pessoas. É algo de domínio ainda restrito a alguns especialistas e pesquisadores, porque a lógica dos dados e da dataficação é toda imaterial, embora o discurso e a ilusão da virtualidade no mundo digital já tenham sido vencidos, porque hoje se sabe, amplamente, que os dados para existirem prescindem de enorme e colossal infraestrutura digital.

Assim, os dados não são visíveis, são abstratos e imateriais, embora demandem potentes infraestruturas maquínicas digitais para que possam ser capturados, processados, estruturados e correlacionados. Isso se dá a partir de fluxos que ligam diferentes infraestruturas fixas digitais, de vários territórios e diferentes continentes, onde são armazenados e alcançados, em movimentos frenéticos, permanentes e cumulativos.

A dataficação é um fenômeno que usa o digital para criar novos dispositivos e novos mercados (marketfation, CALLON, 2008) [1] com a conversão do máximo de atividades humanas, naturais e maquínicas em dados (AMADEU, 2025, p.30) [2]. Assim, a digitalização se tornou a última fronteira da globalização neoliberal financeirizada (MOROZOV, 2013) [3]. De forma similar, também é possível afirmar que a dataficação se tornou a base da economia digital e uma nova fronteira de acumulação no capitalismo contemporâneo.

A dataficação é ainda, um fenômeno contínuo, pervasivo (se espalha) e que busca extrair dados de tudo: pessoas (comportamentos, relações e movimentos); natureza; das coisas e ainda dos dispositivos e das máquinas. Ou seja, se trata de um processo que busca transformar fenômenos do mundo real em dados quantificáveis e digitais para assim gerar valor ou conhecimento, incluindo a transformação de experiências antes intangíveis, como amizades, emoções, preferências, movimentos físicos etc. que assim passam a ser representadas numericamente e tratadas como dados (MAYER-Schonberger, V. e CUKIER, K., 2013). [4]

 

Similaridades e distinções entre dados e petróleo

Ao contrário do que muito se diz, os dados não existem puros na natureza como o petróleo com o qual é comparado quase à exaustão. Isso só é verdade quando se trata do acúmulo de riquezas. Porém, tanto o petróleo in-natura quanto o dado solto e isolado não têm serventia. Os dados precisam dos algoritmos para serem extraídos e correlacionados. De forma similar, o petróleo precisa das plataformas e bases operacionais para extração e posterior beneficiamento com separação da água, areia e outras impurezas.

Já que são tão comparados, embora de forma errônea na maioria das vezes, penso que vale avançar nessa análise comparativa dessas duas coisas: dados e petróleo. Ambas se transformam em commodities ou produtos comuns para serem negociados após beneficiamento ou processamento. Lembrando que commodity é qualquer produto natural ou básico que é praticamente igual independente de quem produziu.

O petróleo precisa ser refinado para se transformar em cerca de outras das três mil mercadorias possíveis. Já os dados se estiverem isolados não têm valor. Sua valorização acontece quando eles passam a ser correlacionados. Por exemplo: vendas de um tipo de produto ou serviço, para um tipo de público, num determinado horário, em negócio presencial e/ou online, região, etc. Dados sobre saúde, exames, por idade, sexo, relação com doenças pré-existentes, numa região etc. Relações pessoais e/ou institucionais nas mídias sociais, formas de interação e outros tipos de comunicação, preferências e frequência de curtidas e comentários, sobre quais assuntos, postagens e imagens etc.

Todos os sensores e dispositivos digitais produzem dados cumulativamente. Os conhecidos smartwachtes convertem batimentos cardíacos e o sono em séries e conjunto de dados. Os aplicativos de transporte (mobilidade) registram os trajetos, origem, destino, tempo de percurso, movimentos dos motoristas etc. Os aplicativos de bancos traduzem nossos comportamentos financeiros em pontuações e scores que depois servirão para análises de riscos. Dados como pagamentos de contas de água, luz, telefone, estabilidade de número de celular, padrão de consumo online, localização geográfica, relacionamentos com contatos que já deram calotes etc. tudo isso acaba servindo para diferenciar bons e maus pagadores com atribuição de pesos e uma pontuação final (credit scoring) que, em síntese, é usada como análise de risco online, servindo como uma espécie de “motor de decisão” nas instituições financeiras.

Porém, há uma grande e fundamental diferença entre eles: o petróleo depois de processado, só pode ser utilizado uma única vez como mercadoria, após seu beneficiamento e refino (como no caso dos combustíveis ou outros). Enquanto isso, os dados extraídos, processados e estruturados, sob a forma de conjunto de dados (datasets) podem ser utilizados inúmeras vezes, ou indefinidamente, de forma contínua e para diferentes funcionalidades, o que torna sua acumulação uma riqueza com muito maior potencial de valorização que o petróleo.

A utilização do conjunto de dados capturados dos comportamentos dos usuários tende a se multiplicar na medida em que o seu uso gera atração de mais usuários num círculo virtuoso de valorização e acumulação numa espécie de reprodução ampliada.

Outra observação importante é que os dados, mesmo que relacionados, não são iguais entre si e possuem valores diferentes conforme a serventia. Há dados simples de pouco valor, mas há outros sobre comportamentos e obtidos a partir das relações nas mídias sociais que são muito usados em atração de interesse e mercado para o e-commerce ou para a publicidade no geral.

O petróleo, embora também não seja igual entre todos os extraídos, não é tão diverso quanto os dados. Há o petróleo mais denso, parafinado e o mais fino e mais fácil de ser refinado por isso tem maior valor, porém, após beneficiamento, ambos produzem as mesmas mercadorias para uso como os combustíveis e outros que possuirão valores idênticos no mercado. Já os mesmos conjuntos de dados podem ser usados para diferentes finalidades que agregarão variados e múltiplos e cumulativos valores.

 

Datasets são conjuntos de dados com valor e usos permanentes

Datasets são conjuntos de dados organizados e estruturados. Alguns conjuntos de dados podem chegar a valores de mercado muito maiores que outros mais simples. É o caso do conjunto de dados utilizados para treinamento profundo (deep learning) de máquinas, destinados à Inteligência Artificial Generativa (IAG) ou Super IA. Esses conjuntos de dados precisam ter alguns predicados como volume, escala, continuidade e facilidades que possam ajudar a IA a compreender os padrões generalizáveis em termos probabilísticos.

Assim, esses conjuntos de dados permitem que os modelos em que são usados possam tomar decisões e avançar em ações com diferentes graus de autonomia, conforme a programação. Por exemplo: os dados e tokens retirados desse artigo (texto) podem servir a este e outros propósitos, várias vezes, para treinamento de diferentes modelos de linguagem.

Nessa lógica de mercado, os pacotes de dados, já em grande escala, se transformam em commodities, em ativo (asset) e em capital. E, dessa forma, também vão sendo sempre e continuamente ampliados, gerando seguidos ciclos de reprodução do capital (digital), levando a novos produtos e mercados e ao gigantismo (oligopolização) das grandes corporações de tecnologia, as Big Techs.

 

A diferença na lógica e na formulação da política de dados dos EUA e da China

Atualmente, oito das dez maiores corporações com capital aberto em bolsas no mundo, são do setor tecnologia. Em 27 de abril de 2026, a soma no valor de mercado das dez maiores Big Techs – maioria americana – equivalia a US$ 27,2 trilhões. Entre elas as chamadas “Magnificent Seven” (Sete Magníficas): NVidia; Google; Apple; Microsoft; Amazon; TSMC; Broadcom e se tornaram os maiores na história da humanidade. [5]

Nos EUA a dominação tecnológica-digital sempre foi diretamente imbricada com a hegemonia financeira do capital de risco (venture) e mercado de capitais, em que os grandes fundos e investidores têm a maior parte do controle acionário das Big Techs que dirigem as suas ações de desenvolvimento tecnológico e de mercado.

É fácil identificar que quase toda a política de dados dos EUA é, fundamentalmente, baseada e centralizada nas Big Techs que administram negócios e serviços espalhados em vários países do mundo em especial, mas não exclusivamente, no Ocidente. Assim, as Big Techs extraem dados gratuitamente e em colossais volumes e os organizam, estruturam, armazenam e concentram sob a forma de diferentes pacotes de dados (datasets) que têm garantido boa parte de seus extraordinários, crescentes e bilionários lucros.

O modelo que vem sendo desenvolvido pelos chineses é distinto, embora por lá, também tenham surgido gigantes corporações de tecnologia, com estruturas de negócios similares (quase espelho) aos das companhias estadunidenses, porém a maioria possui capital fechado e algumas misturam participações acionárias entre companhias estatais e privadas do próprio país. As gigantes corporações de tecnologia chinesas são conhecidas como BATH (Baidu, Alibaba, Tencent e Huawei) além da Byte Dance e JD.com (essa mais da área de logística como braço do e-commerce).

Na China, além dessas gigantes da tecnologia, outras companhias e startups, estão por trás do "Plano de Desenvolvimento de Inteligência Artificial de Nova Geração", lançado em 2017, que tem o papel estratégico de transformar o país no principal centro de inovação em IA do mundo, em concorrência direta com os EUA.

Além disso, a direção e o planejamento chineses, embora também misture o setor estatal e o setor privado nos negócios, a regulação, financiamento e de seus grandes objetivos, direções, metas e ações, são desenvolvidas pelos planos aprovados pela Assembleia Nacional Popular (ANP), o parlamento da China. São planos e objetivos maiores e de longo prazo, o atual com metas até 2029 que ambiciona transformar a China em um “país socialista moderno até 2049” e que se desdobram em planos de prazos menores, os chamados planos quinquenais.

 

A inovação chinesa das bolsas de dados (Datas Exchanges)

Dentro do seu planejamento, a China tem trabalhado a dataficação de uma forma distinta do Ocidente. A China tem de forma especial observado e agido na direção sobre como o Estado pode aproveitar os dados como motor do desenvolvimento econômico. Entendendo a profundidade e extensão de sua importância e repercussão, a China passou a reconhecer o dado como fator de produção, assim como o trabalho, o capital e a terra.

Nessa direção a China criou uma inovação na área da economia digital que são as bolsas de dados (data exchanges) em que os mesmos são valorizados e negociados como ativos financeiros. Ao que que se sabe é uma iniciativa ainda única no mundo, até hoje só existente na China. As bolsas de dados passaram a estimular, regular, organizar e fiscalizar o negócio de conjunto de dados de forma similar às conhecidas bolsas de valores tradicionais.

“Essas experiências buscam integrar mercados de dados locais fragmentados em um mercado nacional unificado, abordando a persistente fragmentação de dados na China entre jurisdições e setores, também conhecida como o problema das “ilhas de dados”. Se trata de uma abordagem alternativa ao que faz os EUA que deixa tudo nas mãos das Big Techs e também ao que faz a União Europeia, essa mais baseada numa governança dos dados com restrição aos mercados, enquanto a China partiu para ferramentas que tentam construir e dinamizar o mercado dos dados, partindo da premissa que se tratam de mais um fator de produção. [6]

Atualmente, já existem na China cerca de 50 bolsas ou plataformas de negociação de dados em funcionamento, em mais de 20 diferentes províncias. Em 2024, duas destas bolsas de dados, a Shangai Data Exchange e a Guizhou-Guiyang Big Data Exchange eram as que comercializavam os maiores volumes de conjunto de dados da China, apurando algo acima de 5 bilhões de yuans (aproximadamente 730 milhões de dólares). No final de 2024, a China somava mais de 32 mil conjuntos de dados comercializados em plataformas espalhadas pelas províncias. [6]

As bolsas de dados chinesas são controladas por organismos estatais que regulam o fluxo interno dos conjuntos de dados comercializados. Há também organismo estatal para regular e fiscalizar os negócios transfronteiriços de dados seguros. Um deles é o Lingand International Data Port de Xangai (vinculado à China Unicom, operadora estatal de telecomunicações) que trabalha com o objetivo estratégico de tornar a região de Xangai como uma “capital digital internacional e motor de inovação tecnológica”.

A China também adota outro instrumento conhecido como “Zona Franca de Dados” ou Zonas de Livre Comércio (FTZs) que funciona em Xangai e Hainan, onde funciona uma espécie de porto de livre comércio de outras mercadorias. Outra província com bolsa de dados bem desenvolvida é Shenzhen (província de Guangdong ou Cantão).

As grandes companhias chinesas privadas de tecnologia privadas tendem a proteger e ganhar com os seus próprios dados, num movimento similar ao que fazem as big techs americanas e muitas vezes preferem negociar seus conjuntos de dados fora das bolsas. Os compradores dos pacotes de dados nas bolsas são empresas de outros setores de médio porte e também, em especial, cada vez mais, as startups de IA.

As gigantes corporações de tecnologia chinesa também concentram seus dados coletados, estruturados e armazenados, mas deixam espaço para os conjuntos de dados que são comercializados nas dezenas de bolsas de dados, garantindo a expansão da inovação para além das grandes corporações digitais. Mais que isso, esses conjuntos de dados têm contribuído para alimentar a economia real na China e não a hegemonia financeira que nos EUA controla, em boa parte, as grandes corporações de tecnologia.

Porém, informações oriundas da China indicam que, também por lá, os setores que mais negociam pacotes de dados como clientes das bolsas (datas exchanges) são pela ordem: finanças e crédito (bancos e fintechs respondem por mais de 40% dos volumes transacionados nas bolsas de dados); seguros; telecomunicações, tecnologia e internet; saúde; manufatura e indústria 4.0 e dados para treinamento de IA. Outra medida adotada pela China na área de dados que reforça a compreensão dos dados como fator de produção é o licenciamento de dados públicos, que concede a entidades selecionadas direitos exclusivos para comercializar dados públicos detidos pelo governo. [6]


As autoridades regulatórias de dados na China

À medida que os dados ganhavam importância na sociedade e na economia chinesas, novos organismos de planejamento, controle e regulação estatais foram sendo desenhados e implantados. Um dos objetivos na implantação destas autoridades estatais e dos instrumentos por elas arquitetadas, incluindo as bolsas de dados, era o de criar um ambiente de políticas que dessem dinâmica a essa classe de ativo, para além de testar e fiscalizar as ofertas e listas de conjuntos de dados colocados para comercialização interna e externa, garantindo, entre outras coisas, que os mesmos sempre fosse “anonimizados e desindentificados”. 

A principal autoridade regulatória de dados, internet e IA da China é a CAC (Cyberspace Administratin of China – Administração do Ciberespaço da China). Entre vários outros assuntos, a CAC cuida da aplicação da lei de Proteção de Informações Pessoais (PIPL) e é também responsável pelo registro obrigatório de algoritmos e pela aprovação prévia de serviços de IA ao público. Porém, em 2023, a China criou a NDA (National Data Administration – Administração Nacional de Dados, como uma autoridade central responsável por coordenar a formulação de políticas econômicas relacionadas aos dados, promovendo uma divisão institucional do trabalho no regime de governança de dados chinês, mas centralizou mais funções de desenvolvimento da NDA, deixando a supervisão da segurança e privacidade dos dados com a CAC, junto com outras agências responsáveis ​​pela aplicação das estruturas regulatórias preexistentes.

Outro órgão importante na política de dados da China é o MIIT (Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação) que regula o setor que opera as telecomunicações, infraestrutura digital e a indústria. Já a NDRC, Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma tem a função de planejamento estratégico das infraestruturas com papel crescente no desenvolvimento da IA. Outros órgãos e ministérios também atuam nessa área como: Ciência e Tecnologia; Segurança Pública; Comitê Nacional de Cibersegurança e Regulação de Mercado.

Entre outras estratégias chinesas na área de dados, o governo chinês também estabeleceu sete províncias (incluindo Pequim, Xangai, Shenzen, Guiyang e Guangdong) como zonas piloto de desenvolvimento e inovação da economia digital com o objetivo de explorar soluções técnicas e políticas voltadas aos gargalos do mercado de dados. O desafio perseguido seria o de garantir a valoração dos dados, o direito de propriedade e a construção de confiança entre fornecedores e compradores dos conjuntos de dados como fator de inovação e produção material.

 

China propôs criação da Organização Mundial de Dados (OMD)

As ações e políticas na área de gestão dos dados tem sido feita basicamente pelos governos nacionais e/ou corporações. Porém, no final de março de 2026, a China, através do seu presidente Xi Jiping avançou nessa área, com um movimento ousado, multilateral, ao propor a constituição de um organismo (uma plataforma) internacional dedicada a criar normas globais de governança de dados. A iniciativa ganhou a denominação de Organização Mundial de Dados (OMD ou WDO em inglês). A proposta é que a entidade como organismo multilateral tenha foco na cooperação internacional e como principal função a liberação do valor dos dados com o objetivo de reduzir a divisão digital desigual em termos de compartilhamento.

O objetivo mais geral da WDO seria de impulsionar a economia digital com foco na segurança e privacidade em todo o mundo. A China estimou que a OMD possa ainda preencher uma lacuna fundamental na atual disputa pelo controle dos dados que tem sido o eixo central da disputa geopolítica tecnológica global. A meta seria ainda de tornar a WDO uma plataforma internacional de referência com reconhecimento global na promoção da governança de dados, inovação tecnológica e inclusão digital em escala mundial. [7] [8]

Há que se observar como esta interessante proposta avançará diante dos desgastes que se observa na ONU e também nas demais organizações mundiais setoriais já existentes (OMS, OMC e OIT), diante de tantos desentendimentos entre os dois maiores líderes mundiais em tecnologia digital, os EUA e a China. E também diante dos desafios das tensas relações internacionais atuais que pendem entre nova guerra fria com a volta da bipolaridade ou do início de nova ordem global baseada na multipolaridade.

 

Considerações finais sobre a urgência de uma política de dados para o Brasil

O objetivo desse texto foi o de destacar o valor dos dados e como vem se desenvolvendo os processos de dataficação e sua relação com a digitalização, plataformização, o rentismo e novas formas de acumulação nas sociedades contemporâneas. Além disso, foram também apresentados alguns elementos sobre as ações que estão sendo adotadas pelas nações que pularam na frente nos processos de dataficação, extração e acumulação dessa colossal riqueza.

Essa breve exposição teve ainda o objetivo de trazer mais argumentos visando deixar ainda mais claro como é indispensável e urgente que o Brasil organize e implante uma política nacional de dados, indo muito para além da desejada privacidade, como já tinha abordado e defendido em artigo anterior, no qual chamei a atenção para o fator econômico embutido na questão, ao lembrar que o Brasil é a 5ª maior economia digital do mundo. [9]

Também tenho insistido que não se deve tratar dessas questões de forma pontual ou isolada. É necessário olhar, analisar e propor políticas integradas para toda a extensa e complexa cadeia produtiva que vai desde as terras raras/minerais críticos e estratégicos (MCE), passando pela questão energética (incluindo a transição com os renováveis) e hídrica, até o e-commerce com negócios de produtos e serviços, incluindo aplicativos de música, streaming para artes e cultura. Porém, mais especialmente a extração, proteção, armazenamento e controle monopolístico com valorização dos zilhões (múltiplos bilhões) de dados que nós brasileiros produzimos a cada ano.

Alguns estudiosos têm ainda afirmado que mais que dados genéricos, o potencial dos dados gerados no Brasil é ainda bem maior e isso acontece por conta das características da língua portuguesa, usada num país de mais de 150 milhões de usuários de internet. Segundo Horta (2026), nossa linguagem possui enorme diversidade lexical, sintática e um tecido semântico com características partilhadas (tokens), o que confere maior valor aos dados, mais que em outros casos, diante das operações de treinamento de modelos, para que os mesmos aprendam padrões que sejam generalizáveis, pois possuem maiores capacidades em termos de probabilidades estatísticas, indispensáveis quando se está falando de aprendizagem profunda de máquina, para uso na IA generativa (Gen AI). [10]

Considerando tudo que já sabemos sobre os processos imbricados envolvidos na economia digital - que gostam de chamar, equivocadamente, de ecossistema, só porque são integrados -, não é admissível que deixemos prosseguir os meios e as condições que permitem o livre e gratuito fluxo dos dados de nossa população brasileira, à mercê da captura e uso por parte dos oligopólios das Big Techs. Passado o tempo e o conhecimento que agora dispomos sobre a valoração dessa colossal riqueza dos nossos dados, paulatinamente, esse vem se tornando um dos maiores crimes lesa pátria e contra a soberania da história de nosso país.

Nessa linha, entende-se que não cabe falar isoladamente em política para investimentos em datacenters e infraestruturas digitais sem considerar a dataficação e a implantação de uma clara, urgente e política de dados no Brasil. É insuficiente tratar do tema do tema delicado da soberania e segurança nacional sem que o país implante medidas que impeçam a transferência gratuita dos dados das pessoas, empresas, governo e da sociedade brasileira para as grandes corporações concentradas nos EUA, que depois se utilizam deles para nos cobrar valores exorbitantes, pela prestação de serviços, nos quais os dados são os insumos básicos. 

Em 2024, as Big Techs tiveram no Brasil, um total de R$ 144 bilhões em receitas e remeteram R$ 80,3 bilhões de lucros (55% do faturamento) para as suas sedes nos EUA, um volume 28 vezes maior que há uma década antes. [9] Estas são ocorrências da realidade fática que retratam a dependência e a submissão de um colonialismo digital que não é aceitável que siga indefinidamente. Dados são matérias-primas que não podem estar a serviços de novas e contemporâneas arquiteturas de colonização, agora, também, de natureza digital.

Os caminhos utilizados pela China, EUA e outros países são exemplos, mas cada país tem condições e situações particulares na inter-relação Estado-instituições-mercado e sociedade. Se apropriando da ideia dos objetivos das discussões climáticas, é possível pensar um “mapa de nosso caminho digital” em que a dataficação é questão básica a ser planejada com urgência.

Com bolsas ou sem bolsas de dados, mas com uma política clara, forte e propositiva de dados com definição de autoridades regulatórias, mas também com objetivos de planejamento, organização e financiamento que sejam céleres. Considerando o sistema que vivemos, não se deve deixar de incluir formas de participação e de financiamento que envolva o setor privado com atuação nas diversas etapas da cadeia produtiva da economia digital. 

O Brasil não começará do zero, há várias instituições, companhias e pessoas qualificadas para essa tarefa, mas a espinha dorsal (backbone) da política de dados precisa ser urgentemente traçada e definida. No caso brasileiro, o MCT, Finep e BNDES poderiam, por exemplo, serem o embrião para estruturar essa espinha dorsal e arrastar o corpo com outros agentes para o “mapa do caminho da dataficação” no país. Mãos à obra!

PS.: Breves atualizações e correções feitas às 15:46.

 

Referências:

[1] Callon, Michel. Economic markets and the rise of interactive agencements: from prosthetic agencies to ‘habilitated’ agencies. Em: T. Pinch and R. Swerdberg, eds. Living in a material world. Cambridge, MA: MIT Press, 29-56, 2008.

[2] AMADEU, Sérgio. 2025. As Big Techs e a Guerra Total: O complexo militar-dataficado. São Paulo: Hedra, 2025.

[3] Afirmação do pesquisador bielorrusso, Evgeny MOROZOV, feita no Brasil, em palestra realizada no dia 28 de agosto de 2023, no teatro da FECAP (São Paulo) que teve como tema: "Desafiando o poder das Big Techs: soberania tecnológica e futuros digitais alternativos", numa iniciativa do NIC.br e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Na oportunidade, Morozov também falou sobre a “importância da soberania tecnológica em um mundo cada vez mais digital, pré-requisito para qualquer soberania política e econômica significativas”.

[4] MAYER-SCHONBERGER, V. e CUKIER, K. Big Data: Como extrair volume, variedade, velocidade e valor da avalanche de informação cotidiana. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2013.

[5] Valor de mercado das Big Techs extraídos do Infinite Market Cap em 27 de abril de 2026.

[6] GUO, Ran. Assetizing, Trading, Franchising: China's Strategy for Building a National Data Economy. Asia Society Policy Institute em 13 de fevereiro de 2026. Disponível em https://asiasociety.org/policy-institute/assetizing-trading-franchising-chinas-strategy-building-national-data-economy

[7] GÖRGEN, James. O papel da Organização Mundial de Dados no tabuleiro da soberania digital - O lançamento da WDO reposiciona os cálculos estratégicos de cada um dos principais atores da governança digital. Revista Exame em 31 de março de 2026. Disponível em: https://exame.com/colunistas/opiniao/o-papel-da-organizacao-mundial-de-dados-no-tabuleiro-da-soberania-digital/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento

[8] FALCI, Bruno. Organização Mundial de Dados para impulsionar inclusão digital no Sul Global nasce na China: Pequim se torna a sede da entidade que reúne governos, instituições e empresas de mais de 40 países. Brasil de Fato em 2 de abril de 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/04/02/nasce-na-china-a-organizacao-mundial-de-dados-para-impulsionar-inclusao-digital-no-sul-global/

[9] Pessanha, Roberto M. Artigo publicado no Blog Roberto Moraes e Portal 247 em 16 de abril de 2026. Brasil como 5ª maior economia digital do mundo tem urgência por uma estratégica política de dados! Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2026/04/brasil-como-5-maior-economia-digital-do.html

[10] HORTA, Fernando. Publicado no blog A Terra é redonda em 22 de abril de 2026. Brasil – a joia da coroa digital. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/brasil-a-joia-da-coroa-digital/

quinta-feira, abril 16, 2026

O gigantismo imparável das Big Techs!

Com um olhar que nem precisa ser muito atento observa-se que segue se ampliando o processo de oligopolização das corporações de tecnologia, mesmo com as guerras e a retração econômica espalhada no mundo. Considerando as empresas de capital aberto em bolsas, oito das dez maiores companhias em valor de mercado, são, atualmente, do setor da tecnologia digital e dos dados e atingiram hoje (16 de abril de 2026, dados online do Infinite Market), o valor somado de US$ 26,5 trilhões.

Só a NVidia, a corporação de maior valor (US$ 4,8 trilhões) é cerca de seis vezes mais valiosa que a soma das dez maiores petroleiras do mundo que somam, hoje, cerca de US$ 4,2 trilhões, mesmo com o aumento de valor delas com a guerra EUA-Israel x Irã.

A Google (Alphabet) com valor de US$ 4,0 trilhões ultrapassou a Apple com US$ 3,8 trilhões.

Não estão nessa lista, as grandes corporações de tecnologia chinesas que têm capital fechado (ou só chinês) como a Huawei, ByteDance e Xiaomi. As chinesas Alibaba e Tencent aparecem na lista, mas através de suas subsidiárias, não exprimindo o valor real total de suas holdings. Também não estão na lista as companhias chinesas BYD, Baidu e Deep Seek.

Boa parte do controle das Big Techs americanas está com os grandes fundos financeiros estadudinenses e entre 3 e 5 mil grandes investidores espalhados pelo mundo, mas em especial nos EUA e Europa. As Big Techs e seus controladores não param extrair lucros pelos serviços que executam em todo o mundo, incluive naqueles de apoio à Defesa e às guerras dos EUA.

As Big Techs têm 60% de suas receitas fora dos EUA, embora por lá pague a maior parte dos impostos que renega pagar em outros países, onde também lutam ferozmente contra qualquer regulação e aumento de cobrança de impostos sobre seus serviços e suas remessas de lucros.

Em 2024, as Big Techs dos EUA faturaram no Brasil R$ 144,3 bilhões e enviraram 55% deste faturamento (R$ 80,3 bilhões) para as suas sedes. Nos últimos 5 anos, as Big Techs remeteram desde o Brasil, cerca de R$ 260 bilhões (US$ 52 bilhões) para os EUA.

Esse gigantismo espelha o maior e mais concentrado oligopólio da hisória do capitalismo no mundo, em função de sua caracaterística transsetorial e de sua atuação pervasiva, por se espalhar e de forma fácil e muito rapidamente, ampliando de forma colossal a extração de valor das várias economias em todo o mundo que demanda seus serviços.

Regular a atuação das Big Techs é pouco. É preciso ir além. É necessário termos infraestrutura digital, mais uma política pública de dados e uma diretriz em defesa da soberania nacional e dos interesses de nosso povo.

Porém, é preciso ainda compreender que o gigantismo das Big Techs americanas não é um fato estático, é um processo contínuo, cumulativo e cada vez mais imbricado, com as relações de poder entre as corporações da tecnologia digital e o Estado dos EUA, no esforço - desesperado - para manutenção de sua hegemonia.

segunda-feira, abril 13, 2026

Brasil como 5ª maior economia digital do mundo tem urgência por uma estratégica política de dados!

A economia digital deve ser sempre analisada na extensão de toda a sua cadeia produtiva que vai desde as terras raras/minerais estratégicos críticos (MEC), a questão energética (incluindo a transição com os renováveis) ao e-commerce com negócios de produtos e serviços, incluindo até os aplicativos de música, streaming para artes, cultura, etc.

A dataficação é o fenômeno que se situa num degrau acima da digitalização ou da chamada transformação digital que exige e deve nos despertar para uma política pública especial para os dados que vai muito para além da necessária privacidade. 

Ao contrário do que muitas vezes se diz os dados não existem puros na natureza ou nos sistemas. Os dados precisam ser correlacionados, organizados e estruturados para terem valor e, assim, se transformarem em mercadoria e em commodities para serem negociados, inclusive em bolsas de valores específicas de dados, como a criada em 2016 em Pequim e que começou a fazer negócios em 2021. Assim, a China passou a considerar os pacote de dados como fator de produção, junto com terra, capital e trabalho que passa a alimentar novas forças produtivas.


Dataficação como etapa contemporânea da reestruração produtiva se desenvolve de maneira distinta nos EUA e na China

É preciso reconhecer que estamos lidando com um fenômeno que é parte de uma nova etapa da reestruturação produtiva (dataficação e plataformismo) que possui várias dimensões de análise (multidimensional) e com características transescalares e transnacionais e, portanto, que merece abordagens da geoeconomia e da geopolítica.

Observando nessa dimensão da geoeconomia e da geopolítica ficam claros dois movimentos bem distintos em termos direção e planejamento. No Ocidente os grandes investimentos no desenvolvimento da tecnologia digital e dos dados têm como motor a direção e o controle do mercado de capitais (venture capital). Grosso modo, pode-se dizer que o Big Money dirige e controla as Big Techs. As gestoras dos grandes fundos financeiros americanos (BlackRock, Vanguard, Fidelity, JP Morgan etc.) têm entre 25% e 30% das ações das maiores Big Techs americanas, o que confirma o enorme imbricamento, desde o DNA, entre o Big Money e as Big Techs.

Já no Leste, no Oriente, na Ásia, em especial na China, o grande motor é o Estado, seu plano de longo prazo (2050) que se desdobra nos planos quinquenais que vão definindo as principais direções e as metas em prazos mais curtos. O Estado (nacional e provinciais) define as metas, financia boa parte dos projetos e ações, mas dá espaço e incentiva que os empreendimentos privados assumam setores e os negócios em toda a extensa e densa cadeia produtiva digital, mas garantindo o norte dos grandes objetivos e metas da nação.


O gigantismo do monopólio das Big Techs

No Ocidente, as gigantes corporações de tecnologia, chamadas desde lá atrás de Big Techs, avançam em oligopólios cada vez maiores estruturados por setor e funções dentro da economia digital como um todo, mas têm como direção e objetivo maior, a rentabilidade das Big Techs e dos fundos, praticamente todas as líderes com sedes nos EUA, de onde controlam a extração de dados e a remessa de lucros de todo o mundo, repudiando e lutando com sua força e seu poder contra toda e qualquer regulação dos estados nacionais.

Essa aliança entre o Big Money e as Big Techs gerou um gigantismo que expressa e redunda no atual e maior monopólio de toda a história da humanidade, muito superior ao que foram as Big Oil (Petroleiras), Big Stell (siderúrgicas), Big Car (montadoras de automóveis) e Big Pharms (farmacêuticas).

O fato de ser um fenômeno (digitalização/dataficação) transversal (pervasivo, ou que se espalha) e que atua de forma contínua e cumulativa, contribui para que dataficação atue sobre todos os demais setores da economia (assim como as finanças e o crédito), com o qual nasceu e cresce de forma imbricada e direta, explicando esse monopólio gigante que hoje está - mais que nunca - abraçado e enlaçado com o Estado dos EUA, incluindo nos setores de defesa e da guerra.

Para se ter uma ideia do tamanho desse gigantismo é oportuno investigar os dados atuais das corporações de maior valor de mercado do mundo. Oito das dez maiores corporações do mundo que possuem capital aberto em bolsa são da área de tecnologia. Hoje, dia 13 abril de 2026, mesmo com a retração econômica mundial derivada das guerras (OTAN-EUA-Ucrânia x Rússia e EUA-Israel x Irã), as 10+ Big Techs somam US$ 25 trilhões (para ser exato US$ 24.982 bilhões), liderada pela NVidia que sozinha vale US$ 4,5 trilhões.

Enquanto isso, as 10+ petroleiras do mundo (com capital em bolsa) somam US$ 4,2 trilhões (para ser exato US$ 4.176 bilhões), liderada pela saudita Saudi Aramco que hoje está valendo US$ 1,7 trilhão. Ou seja, só a NVidia vale mais que a soma das dez maiores petroleiras somadas. As 10+ Big Techs valem 6 vezes mais que as 10+ Big Oil. Observem ainda que que isso se dá no auge da valorização dessas companhias, considerando o atual aumento do valor do barril de petróleo acima de US$ 100.

As Big Techs pagam muito mais impostos nos EUA do que no resto do mundo incluindo o Brasil. Ou seja, as Big Techs aceitam pagar maiores impostos nos EUA e negam qualquer coisa próxima a equivalência, em qualquer outra parte do mundo.  Hoje, as Big Techs têm no governo estadudinense uma espécie de barreira de proteção que pressiona com tarifaços e outros mecanismos, para que os países não façam regulações (alegam liberdade) e também atuam para limitar as cobranças de impostos nesses outros países onde prestam serviços e extraem “zilhões” (mais que trilhões) de dados de forma completamente gratuita e quase sem nenhum controle.


As receitas e a remessa de lucros que as Big Techs realizam no Brasil 

No Brasil as Big Techs tiveram R$ 144 bilhões em receitas no ano de 2024 e remeteram R$ 80,3 bilhões de lucros para as suas sedes nos EUA. Ou seja, um volume de remessa de lucros equivalentes a 55% do seu faturamento no país. Em 2014, o volume de remessa de lucros das Big Techs desde o Brasil tinha sido de apenas R$ 2,8 bilhões. Ou seja, estamos falando de aumento de 28 vezes no volume de remessas de lucros realizadas pelas Big Techs em apenas uma década no Brasil.

Tudo isso é espantoso e, mesmo que sabido, aparece para a maioria dos brasileiros de forma extremamente fragmentada e assim vai passando de forma despercebida. Há muitas ações a serem implementadas no país. Sabe-se que a correlação de forças na geopolítica é desfavorável diante de todo tipo de ameaças e das ofertas entreguistas. Porém, é preciso ter clareza desse quadro, para se ter noção da direção por onde é possível avançar e aquilo que não cabe ser negociado, em toda a extensa e densa cadeia produtiva digital do país. O Brasil é disparado a maior economia digital da AL e a quinta maior do mundo.

A soberania digital vai muito para além da implantação da infraestrutura digital com datacenters e conectividade no Brasil. É urgente também uma política clara dos negócios de dados, entendendo seu papel estratégico nessa fase revolucionária da reestruturação produtiva e da digitalização na vida em sociedade.

segunda-feira, abril 06, 2026

Relação entre dados, infraestrutura digital, IA, novas forças produtivas e um projeto nacional de desenvolvimento

Quando se fala em soberania digital ou cibernética muito se comenta sobre a necessidade de controle sobre a Infraestrutura Digital (em especial datacenters e redes de cabos submarinos e conectividade). Sim, isso é indispensável, assim como o suprimento de energia elétrica para manter essas infraestruturas, mas não apenas.

É preciso mais. É necessário ter controle sobre a Política de Dados para que elas atendam aos interesses públicos e coletivos. Pacotes de dados estruturados que possam ser armazenados, processados, computados, relacionados e até negociados, como os "datasets", que devem preservar a privacidade dos dados individuais.

Nessa linha, os vários tipos de dados entram na equação como fator de produção e como força produtiva. Assim, os dados podem estar vinculados à inovação industrial e às novas arquiteturas que podem oferecer e garantir maiores escalas de produção. Nesse movimento é fundamental enxergar a totalidade da cadeia produtiva digital como estratégica, porque que ela se articula, transversalmente, a todos os demais setores da economia e suas cadeias de valor dentro e fora do país.

Imagem gerada pela IA do Gemini
Vale ainda lembrar que não se pode falar em Inteligência Artificial (IA) sem falar na armazenagem de dados, no treinamento profundo de máquinas (deep learning) que possibilitam a busca de padrões probabilísticos e modelos de linguagens (LLMs e chatbots). Esses padrões só são identificados se os dados existirem de forma não fragmentada e estruturada, para assim servir - de forma integrada - ao sistema de produção e aos serviços..

Nessa direção a China avançou para o modelo das bolsas de dados. São várias bolsas puxadas pela de Xangai que já tem dez anos de implantação (2016). Já os EUA e o Ocidente têm deixado quase todos esses negócios de dados por conta das Big Techs e de seus investidores (mercado financeiro, gestoras de fundos e capital de risco).

Segundo James Görgen, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e assessor no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025, os negócios realizados nas bolsas de dados chinesas teriam ultrapassado a quantia de U$ 277 bilhões, tendo uma previsão de que até 2030 deverá passar do valor de U$ 1 trilhão, embora, outras estimativas afirmem que esse valor poderia chegar aos US$ 8 trilhões. Hoje, abril de 2026, esse valor equivale a 1/3 do valor de mercado da soma das 10 maiores corporações de tecnologia do mundo com capital aberto ou que possuem ações em bolsa.

A partir destas questões ímpares, descortinam-se muitas possibilidades que diferem e vão noutra direção em relação ao atual uso indiscriminado de dados, capturados e desapropriados dos brasileiros por parte das gigantes coporações de tecnologia dos EUA. Uso que tem servido a ampliação do extrativismo hi-tech e à captura de renda executada pelas plataformas digitais que resultam nos grandes oligopólios que monetizam esses dados se imbricando de forma siamesa com a hegemonia financeira que tem sido a primeira e maior usufrutuária dos processos crescentes de digitalização e plataformização.

Neste contexto, é fundamental que o Estado brasileiro, muito além de incentivar uma infraestrutura digital soberana de datacenters com controle de acesso e interconectividade ampla, mas atue também – e de forma especial – na organização de uma política nacional de dados estruturados que possa servir à toda a economia brasileira e nossa cadeia produtiva, como parte de um amplo, claro e potente projeto nacional e integrado de desenvolvimento. 

O Brasil tem a maior economia digital da América Latina caminhando para chegar a 200 milhões de usuários de internet que são também produtores de dados entre navegação, e-commerce e serviços de todo o tipo, em especial, saúde, educação e cultura. 

O Brasil é grande demais em qualquer dimensão que se observe e tem não só potencial, mas bilhões de dados estruturados em nossas bases estatais e privadas, além de também possuir bases materiais, científicas, pessoal e tecnológicas, para interromper o atual extrativismo hi-tech. Assim, o Brasil pode e deve optar por outra direção com um planejamento soberano, sem isolamento e com articulações geoeconômicas e geopolíticas que garantam o interesse nacional.

segunda-feira, março 30, 2026

A inovação tecnológica e a Era IA+ no 15º plano quinquenal chinês (2026-2030)

A China usa o planejamento de curto, médio e longo prazos de uma forma que merece registro. Não se trata de um plano formal e burocrático, como a maior parte dos nossos planos, via de regra, muito sofisticados e pouco compreensíveis, sobre onde querem chegar e como pretendem alcançar os resultados.

Os planos quinquenais chineses percorrem um processo histórico que se iniciaram na década de 50. Nesse percurso os estudiosos do tema identificam que os planos chineses com periodicidade quizenal tiveram fases ou etapas de desenvolvimento. O 15º PQC pertence à quarta fase. 

É importante destacar que os planos quinquenais chineses estão cada vez mais simples, fáceis de serem interpretados, claros e indicando com nitidez as prioridades e qual (is) será (ão) o(s) “motor(es)” para torná-los viáveis e reais no prazo definido.

Assim, resolvi fazer uma leitura en-passant sobre esse último plano quinquenal chinês (15º PQC: 2026-2023), lançado neste mês de março e que tem como meta econômica, um crescimento do PIB entre 4,5% e 5%, já para este ano de 2026. Para não me estender e por considerar que já há outras boas análises sobre o 15º PQC [1], direcionei o foco das observações (também por conta de meus interesses de pesquisa) para as inovações que têm relação com a tecnologia e com a cadeia da economia digital incluindo a Inteligência Artificial (IA).

Imagem gerada por IA (Gemini) a partir do texto com prompt artístico de Wellington Abreu.

As diretrizes gerais deste 15º PQC estão na autossuficiência tecnológica, inovação industrial, transição energética, aumento do consumo interno e bem-estar social. Assim, os chineses pretendem superar o que ainda resta de dependência tecnológica, focando em especial na tecnologia avançada de “microprocessadores e da Inteligência Artificial”, áreas em que já vem conquistando bons resultados. Assim, agora, o eixo passou a ser a promoção de “novas forças produtivas” a partir da IA, computação quântica, 6G e veículos elétricos (VE).


A diferença da China e EUA na direção da inovação e da IA

O PQC (2026-2030) propõe o que chama de “arquitetura das novas forças produtivas” e um crescimento com alta qualidade. Destaco os itens: “China digital, tecnologia quântica e Era IA+” com investimentos em: interface cérebro-máquina e chips neurais dedicados (telepatia); IA corporificada; uso em alta escala de robôs humanoides semiautônomos, algoritmos de decodificação de sinais, banco de dados linguísticos etc.[2]

O PQC (2026-2023) já parte da premissa da Inteligência Artificial (IA) considerada como fator de produção (junto com terra, trabalho e capital) com uso de chips (microprocessadores) de alta performance mais as infraestruturas de governança de dados que incluem Bolsas de pacotes de dados, uso de telecomunicações com infraestrutura digital de redes, capacidade de computação, datacenters (nuvem) e constelação de satélites em órbita baixa.

Como base para a “mudança de paradigma e infraestrutura para a Era IA+” o PQC lista três direções: Rede Nacional de Dados “confiáveis”; Integração do Poder Computacional com clusters gigantes de inteligência computacional integrado à rede de energia verde; Inovação algorítmica com arquiteturas de grandes modelos universais e setoriais, atuando em paralelo, mas focando cenários de alto valor.

Os planos e modelos chineses para a cadeia (força) produtiva da Economia Digital, incluindo a IA, diferem bastante dos EUA. No caso americano as orientações se orientam e se sustentam nas decisões das grandes corporações de tecnologia (Big Techs) e no mercado de capitais (ou capital de risco) que refletem o controle e a hegemonia financeira via mercado.


PQC como inovação de gestão, financiamento estatal e participação privada com orientação para a economia real, bem-estar da sociedade e IA como utilidade pública

Enquanto isso, o plano chinês, se calça no planejamento e no financiamento estatal (articulados nos três níveis) que também tem participação expressiva de companhias privadas, mas seguindo o plano governamental (PQC). Além disso, o mais importante é que o plano chinês se orienta para a materialidade da economia real das forças produtivas da indústria, consumo e os serviços de toda a natureza, incluindo o bem-estar da sociedade com ensino de qualidade, saúde e diagnóstico e cuidado de idosos.

O avanço para a AGI ou IA de propósito geral (Era IA+) e da infraestrutura de dados chineses, não se circunscreve à imbricação e aos interesses do rentismo do Big Money de Wall Street que, atualmente, são os primeiros e maiores usufrutuários dos avanços da digitalização e da plataformização que, sob a racionalidade neoliberal foca, quase exclusivamente, nos ganhos de produtividade e na prescindibilidade humana com substituição da força de trabalho.

Além dessa distinção, para viabilizar os objetivos da China, o PQC fala em “inovação do Estado” com formação de vanguarda de seus recursos humanos, da pesquisa básica de alto risco e da formação de talentos com financiamento de longo prazo, articulação de forças estratégicas entre universidades e infraestruturas, a constituição de consórcio de inovação com empresas líderes de tecnologia e com a integração com as PMEs entre outras ações.

O 15º PQC fala ainda em ampliação da “exploração de profundidade” tanto na terra, quanto no mar e ar (estação espacial lunar, extração e mineração em águas profundas e perfuração oceânica) o que expõe um processo preocupante de expansão do extrativismo.

Na prática, esse ponto do plano traz contradições com os projetos de eletrificação que surgem com a chamada transição energética e verde que apresentava como horizonte a substituição paulatina da matriz energética e também para dar conta do aumento do consumo de energia que produz os efeitos nocivos e já conhecidos sobre o clima no planeta. O plano mostra como o discurso de superação das fontes fósseis pelos renováveis parecem ainda muito distantes, em cheque e em choque em todo o planeta.

Há ainda várias outras observações instigantes no 15º PQC (2026-2030), tanto nos aspectos da inovação, economia digital e IA quanto nas outras questões envolvendo a “nova matriz industrial” (otimização da base industrial tradicional); a “expansão da escala da indústria emergente” (polos de baterias de nova geração, aviação comercial, biomanufatura e veículos inteligentes), quanto a “incubação do amanhã com a indústria do futuro” (avanço nas pesquisas sobre fusão nuclear, interface cérebro-máquina e IA corporificada).

Porém, o objetivo deste texto foi o de contribuir trazendo uma síntese sobre a direção que os chineses planejam e já executam no período até o ano 2030. Assim, vale destacar como os chineses enxergam a infraestrutura digital (microprocessadores, capacidade computacional, redes e data centers) como base para a IA, AGI (ou Era IA+) para as novas forças produtivas. Na contraparte, o plano parte o 15º PQC parece se ancorar na ideia da IA vista também como “infraestrutura de utilidade pública” de um todo que seria o “Sistema Operacional Nacional”.

 

Referências:

[1] Um bom histórico sobre os planos quinquenais chineses e também boa análise geral sobre o 15º PQC foi feita por José Renato Peneluppi para revista Focus da Fundação Perseu Abramo, em 24 mar. 2026. Disponível em: https://fpabramo.org.br/o-novo-plano-quinquenal-da-china-por-jose-renato-peneluppi-junior/

[2] A China já é o maior produtor mundial de robôs industriais, ultrapassando países como Alemanha e Japão.

sábado, março 28, 2026

Estreito de Hormuz: espaço de disputa Irã x EUA repete cobrança de pedágios dos canais do Panamá e Suez

Na prática, com a situação atual da guerra EUA-Israel x Irã, o Estreito de Hormuz está se transformando numa espécie de "novo" e menor canal do Panamá com cobrança de pedágio, seja pelo Irã ou pelos EUA de Trump. Hoje, essa se tornou uma das principais razões da manutenção da guerra. 

No início do atual conflito isso não estava claro. A mesma comparação vale para o Canal de Suez no Mar Vermelho no Egito, próximo àquela região e também importante para o fluxo de petróleo.

Só que ao invés de uma passagem entre o norte e o sul da América ou entre os oceanos Pacífico e Atlântico, o Estreito fica naquela região estratégica, entre o Leste (Oriente) e Oeste (Ocidente) do mundo.
 
Hoje, se tem clareza como esse fluxo tem relação com os petrodólares e todo o mercado financeiro globalizado, para além do custo do barril de petróleo e dos seus derivados.

E tem mais: uma cobrança de pedágio que não prescinde de uma grande e cara obra de engenharia como foi no caso do Canal do Panamá com um porto em cada lado.

Não é controle de fluxo só de energia móvel como petróleo e seus derivados, mas também de dados estratégicos dos países do Golfo com os cabos submarinos que os interligam às nações do Oriente e do Ocidente e que passa pelo Golfo Pérsico.


PS.: Ao lado e abaixo um mapa do Estreito de Hormuz e outro mapa que mostra os cabos submarinos que passam por aquela região.


PS.: Postagem original no perfil do FB deste autor em 26 de março de 2026.


segunda-feira, março 23, 2026

Colossal extrativismo de dados

As Big Techs e/ou corporações de tecnologia que estão trabalhando com Inteligência Artificial (IA) estão fazendo acessos e cópias de tudo que é conteúdo disponível nas redes para treinamento de máquinas em seus datacenters de IA. O volume é algo espantoso.
 
Já comentei sobre essa realidade aqui quando disse que fluxos maciços de ados ajuda a tornar nossa internet mais lenta, além de ser um uso descarado de conteúdos alheios para fins conhecidos.

Tenho usado como referência dessa observação o meu blog pessoal que existe há mais de 21 anos, embora, ultimamente, esteja fazendo bem menos postagens, cerca de até duas ou três mensais em média, apenas.

Apesar de tão poucas postagens mais recentes (o blog possui um total de 19,3 mil postagens nesses 21 anos), o número de acessos ao blog não para de crescer nestes últimos doze meses. Antes, ele possuía uma média entre 2 mil e 3 mil visitantes diários, agora isso se multiplicou enormemente.
 
Nos últimos 30 dias foram 1,2 milhão de acessos, sendo 331 mil acessos num único dia, 01 mar 2026. Não tenho e nunca tive nenhuma ilusão sobre interesse em postagens específicas do blog. O fato se deve ao uso dos conteúdos para treinamento de máquina (Machine Learning) para uso dos modelos de linguagens de máquina e processamento em busca de padrões para gerar repostas nos chatbots tipo Chat GPT e outros.
 
É uma colossal extração de dados e de valor. Extrativismo Hi-Tech relativos aos dados e suas correlações que é semelhante à extração de recursos minerais, como já tem sido amplamente discutido, sobre o processo de Dataficação que se desdobra do processo de Digitalização, que há quatro décadas se chamou de informatização.

Esse fato reforça uma referência que fiz, em alguns dos meus textos, numa homeagem ao uruguaio Eduardo Galeano: "Artérias digitais escancaradas da América Latina" relembrando o seu livro "Veias abertas da AL", sobre o captura de valor do ouro, prata, cobre, petróleo, etc. dos vários países da América Latina.

O exemplo do meu simples blog é apenas uma ponta solta desse fenômeno sóciotecnico da Digitalização /Dataficação, Hegemonia Financeira e Racionalidade Neoliberal como as três partes do Tripé do Capitalismo Contemporâneo.

Ciclo petro-econômico como elemento de análise da geoeconomia e geopolítica do petróleo e da energia

A ideia de ciclo (regulares ou irregulares) pressupõe duas fases: boom ou expansão e colapso ou contração. No caso específico, o ciclo petro-econômico (CPE) se refere aos preços da commodity petróleo ao longo do tempo. 
 
A ideia (não chamo de conceito) dos “ciclos petro-econômicos” fez parte das interpretações da minha pesquisa (tese) de doutoramento quando, entre outras análises, busquei demonstrar como os preços dessa mercadoria especial influenciam e são influenciados pelas relações de poder, pelos conflitos regionais e geopolíticos e pela imposição imperial. 

O ciclo petro-econômico nunca é um fenômeno natural, sendo sempre o resultado de ações e decisões corporativas e das relações de poder e da geopolítica.
 
Rios de dinheiro obtidos com essa renda petroleira passaram a alimentar fundos financeiros (soberanos ou privados), diversos outros setores da economia e também a incentivar uma ciranda financeira que passou a ter o dólar (petrodólar) como moeda de transação, a partir de um acordo EUA e Arábia Saudita em substituição ao padrão dólar-ouro.

O petróleo é consumido em todo o mundo, mas produzido por poucas nações, onde o potencial de conflitos é permanente. A circulação de petróleo cru e/ou seus milhares de derivados envolve o uso dos dutos (pipelines) e/ou milhares de navios petroleiros (granéis) que são cada vez maiores e levam à circulação dessa energia móvel como combustível ou outros derivados.
 
A despeito de todo o avanço das ações e dos debates em torno da transição energética, dos renováveis e da necessidade de enfrentamento dos graves problemas climáticos, o petróleo como "mercadoria especial", sua renda e riqueza, continuam elementos-chave e estratégicos na geoeconomia e geopolítica contemporâneas, como a guerra EUA e Israel x Irã estão novamente comprovando, com impacto nos fluxos e nos preços do barril de petróleo e todos os seus derivados.

Até a década de 1970 do século passado, o preço do barril oscilava pouco e era relativamente barato até que a criação da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a independência e superação da condição de colônia das nações produtoras, levou ao 1º Choque do petróleo em 1973. Logo após, na década de 1980, ao 2º Choque do Petróleo que, não por acaso, coincide com a Revolução Islâmica no Irã e à guerra Irã x Iraque.

Daí em diante vários outros conflitos regionais foram responsáveis por novas fases de “boom e colapso” de preços, a partir dos quais se identifica a ocorrências de mais três outros ciclos petro-econômicos.
 
Vale observar que o período entre 2010 e 2014 é o único em toda a história que por um longo tempo (quatro anos) o preço do barril oscilou sempre acima de US$ 100 o barril, embora com picos rápidos em 2008 (crise subprime) e 2022 (guerra Otan-EUA x Rússia). 

É possível que o atual momento com a Guerra EUA-Israel x Irã se coloque como o 3° Choque do petróleo com ainda maior impacto que os daquele das décadas de 1970 e 1980, mas é preciso esperar os acontecimentos e torcer para que a racionalidade e a humanidade imperem, mesmo diante de tanta insanidade.

O gráfico abaixo mostra a relação entre esses conflitos regionais, alguns grandes eventos globais e as duas fases do ciclo petro-econômico entre os anos de 1970 e 2025. Esse gráfico foi produzido em 2016 para a tese, a partir de um outro publicado no site Depto de Energia dos EUA (energy.gov) em 2015.
 
Em 2025, o gráfico foi novamente revisto e atualizado até aquele momento, por conta de uma demanda do Observatório Socioeconômico dos Municípios Produtores de Petróleo (ObPetro) para publicação do livro “Entre a riqueza e a dependência: os dilemas do desenvolvimento nos territórios do petróleo”, organizado pelos professores Leandro Bruno (UFF) e Robson Dias (IFF) que está no prelo e em vias de ser publicado.
 
O gráfico atualizado como está abaixo faz parte do capítulo 1 do livro em que os organizadores me propuseram, uma década depois, revisitar o tema que ganhou o título: “Ciclo petro-econômico como elemento de análise da geoeconomia e geopolítica do petróleo e da energia”.


Adiante, os episódios decorrentes da atual guerra EUA-Israel x Irã serão acrescentados, porque a ideia de ciclo com suas duas fases, só pode ser confirmada e analisada após sua ocorrência, embora seja sempre um importante elemento de análise preditiva sobre os movimentos da economia e da política global (ou da geoeconomia e da geopolítica).

Porém, penso que a análise, mesmo en-passant, das fases dos ciclos petro-econômicos (CPE) anteriores como fenômeno transescalar e multidimensional, relacionados aos conflitos e guerras, se constituem e contribuem como elementos estratégicos para os debates contemporâneos da geopolítica do petróleo.

Em breve o livro estará disponível para uma leitura mais ampla sobre o tema com descrição e análises sobre a renda petrolífera, as dinâmicas das duas fases do ciclo petro-econômico, o CPE como fenômeno transescalar e multidimensional, os períodos dos quatro CPEs e as principais características das fases do CPE nas dimensões: econômica; espacial; temporal; industrial; infraestrutural; política; ambiental; geoeconômica e geopolítica.

PS.: Atualizado para breve correção e acréscimo em 28/03/2026.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

"Como a tecnologia digital (não só as mídias sociais) manipula as eleições", por Reynaldo Aragon e Edem Cardim

Manipulação digital a partir da classificação dos territórios eleitorais. Eleitores são agrupados por espaços emocionais, padrões de comportamento, vulnerabilidades psicológicas e tendências de engajamento nas mídias sociodigitais e, agora, também nas plataformas (chatbots) de IA. 

Mapas ideológicos são desenhados por algoritmos que segmentam os perfis em distritos (espaços) cognitivos. Assim, se tornam presas fáceis do processo de manipulação. "Não é a realidade que molda o comportamento político, é o filtro emocional criado pelos algoritmos e ajustados por atores que pagam para direcionar, ocultar ou amplificar mensagens específicas". 

Exatamente aí se situa a manipulação eleitoral utilizando-se da classificação das pessoas por territórios mentais e não físicos. Uma espécie de cartografia algorítmica.

Além de classificar e identificar quem está de um lado ou outro do espectro político, os algoritmos das midias digitais tentam direcionar a percepção política, mediante processos abstratos e opacos de manipulação que passam despercebidos pela grande maioria dos usuários das redes, vistas como, aparentemente, inofensivas. 

Por isso e muito mais vale ler o artigo de Reynaldo Aragon e Edem Cardim, publicado originalmente aqui no site Código Aberto e republicado também no Portal Outras Palavras. Segundos os autores, esse esquema é muito mais perigoso do que as chamadas fake news, que efetivamente se tratam de "campanhas coordenadas de desinformação". Vale conferir na íntegra!


Gerrymandering Digital: Como as Redes Manipulam Eleições no Brasil

Por Reynaldo Aragon e Eden Cardim

A Eleição Invisível

A eleição brasileira de 2026 já começou — e ela não está acontecendo no território físico, mas no território cognitivo. Enquanto o debate público olha para pesquisas, candidatos e alianças partidárias, a disputa real se desenrola em outra camada da realidade: a arquitetura invisível das plataformas digitais, onde algoritmos e capital privado constroem aquilo que chamo de gerrymandering digital. Trata-se de uma técnica sofisticada, capaz de reorganizar o eleitorado não por regiões geográficas, como no gerrymandering clássico, mas por regiões emocionais, grupos de comportamento, padrões de vulnerabilidade psicológica e tendências de engajamento afetivo. Em vez de redesenhar distritos no mapa, as plataformas redesenham o mapa mental do país.

O funcionamento é simples e brutal. Cada pessoa, ao interagir nas redes, deixa um rastro contínuo de sinais: medos, crenças, preferências, horários de maior fragilidade, temas que provocam raiva, conteúdos que geram prazer imediato, assuntos que disparam indignação moral. Esses sinais são processados por algoritmos que segmentam milhões de indivíduos em distritos cognitivos, grupos invisíveis definidos não pela rua onde moram, mas pelo perfil emocional que apresentam. Assim, uma pessoa que engaja com vídeos de violência urbana, notícias policialescas e conteúdos religiosos tende a ser colocada em um distrito mental do medo. Esse distrito recebe, de maneira sistemática, um fluxo contínuo de mensagens sobre “caos”, “invasões”, “corrupção das instituições”, “guerra cultural” e “necessidade de força”. O objetivo não é informá-la — é manter seu estado emocional ativado para direcionar sua percepção política.

Da mesma forma, uma mulher evangélica que consome conteúdos sobre maternidade, família e fé é automaticamente inserida em um distrito de indignação moral. Ela passa a receber narrativas cuidadosamente calibradas sobre “ameaças à família”, “doutrinação”, “destruição de valores” e “ataques à fé”. Não importa se tais ameaças não existem no mundo real; elas existem no seu mundo algorítmico, construído sob medida. Em ambos os casos, não é a realidade que molda o comportamento político — é o filtro emocional criado pelo algoritmo, ajustado por atores que pagam para direcionar, amplificar ou ocultar mensagens específicas.

Essa engenharia comportamental não acontece de forma aberta. Não há aviso, lei, auditoria ou escolha consciente. As pessoas simplesmente acreditam que estão “vendo as notícias”, quando na verdade estão recebendo uma versão personalizada de realidade, criada para maximizar vulnerabilidades cognitivas e produzir determinados efeitos políticos. Isso, e não as fake news isoladas, é o verdadeiro mecanismo de manipulação contemporâneo: a reorganização industrial da atenção, do afeto e da percepção coletiva.

Por isso afirmo: a maior eleição do Brasil não se vence apenas nas urnas — vence-se dentro da mente das pessoas, dias, meses e anos antes do voto. A democracia formal continua existindo, mas a disputa por ela foi deslocada para a camada invisível das plataformas, onde dinheiro, dados e algoritmos decidem quem vê o quê, quem acredita no quê e, no limite, quem vota em quem. O gerrymandering digital transforma cada emoção em território político, cada feed em distrito eleitoral e cada sujeito em alvo de uma operação psicológica contínua.

É essa eleição invisível — profunda, sistêmica e silenciosa — que precisamos revelar antes que seja tarde para 2026.

Do Território Físico ao Território Cognitivo

O gerrymandering nasceu como uma manobra cartográfica. Durante décadas, seu poder residiu na caneta que redesenhava fronteiras eleitorais nos Estados Unidos: arrastava-se uma linha para concentrar opositores em poucos distritos ou para diluí-los em muitos. A manipulação era física, gráfica, geométrica. A distorção democrática acontecia no papel. Mas o mundo mudou. As democracias do século XXI não são mais mediadas pelo território, e sim pela informação. E, como toda forma de poder, a técnica se adaptou.

A revolução digital deslocou o eixo da política. Em vez de perguntar onde as pessoas moram, as plataformas perguntam quem elas são — ou melhor, quem elas se tornam diante de determinados estímulos. Não interessa mais o bairro, a rua ou a zona eleitoral. Interessa o tipo de conteúdo que provoca raiva, o tipo de notícia que gera ansiedade, o tipo de imagem que aciona culpa, fé, ressentimento ou pertencimento. Com isso, a lógica do gerrymandering deixou de operar no espaço físico e passou a operar no espaço cognitivo. O mapa agora é interno. O território é emocional.

Essa transição é profunda e tem raízes materiais claras. No capitalismo digital, não é o voto isolado que importa, mas a capacidade de modular comportamentos em escala e ao longo do tempo. Cada curtida, cada vídeo assistido até o fim, cada mensagem encaminhada, cada pausa diante de um conteúdo serve como dado para construir um retrato psicológico. Esse retrato, por sua vez, determina o grupo mental ao qual a pessoa será destinada. A troca é simples: sai o distrito geográfico, entra o distrito comportamental. Sai o mapa político, entra o mapa afetivo.

A grande mutação é que, ao contrário do território físico, o território cognitivo é maleável, reconstruído diariamente pela interação. O algoritmo não redesenha fronteiras uma vez por década, como nos mapas eleitorais tradicionais; ele redesenha fronteiras infinitas vezes por minuto. As “bordas” dos distritos cognitivos são frágeis, fluidas, autoajustáveis e quase sempre invisíveis para quem está dentro delas. Uma mesma pessoa pode existir simultaneamente em vários microterritórios mentais, cada um estruturado para determinado tipo de influência política. Não se trata mais de controlar a região onde alguém vota, mas de controlar as condições emocionais pelas quais essa pessoa toma decisões.

Essa mudança representa uma ruptura histórica. O gerrymandering clássico reorganizava o eleitorado para manipular resultados. O gerrymandering digital reorganiza o próprio sujeito. Não desloca apenas grupos; desloca percepções. Não altera apenas fronteiras; altera percepções de realidade. E isso, na lógica do materialismo histórico-dialético, significa que a disputa deixou de ser sobre território e passou a ser sobre consciência. A luta de classes atravessa agora a infraestrutura tecnológica que media a vida cotidiana, moldando a base cognitiva da política antes mesmo que o sujeito perceba que está sendo disputado.

Distritos Eleitorais Digitais

As plataformas transformam os sinais emitidos pelos público em clusters comportamentais. Cada cluster é um grupo de indivíduos que compartilha padrões semelhantes de reação emocional, consumo de conteúdo, vulnerabilidade cognitiva e disposição para engajamento político. E é aí que nasce o distrito eleitoral digital: um território invisível, formado não por ruas ou bairros, mas por estados mentais recorrentes. É exatamente nesses territórios que as narrativas políticas são distribuídas, calibradas e potencializadas para produzir efeitos específicos.

O que faz desses distritos uma arma tão poderosa é a capacidade de serem continuamente atualizados. Ao contrário dos distritos geográficos, que ficam congelados por anos, os distritos digitais se reorganizam em tempo real. Se uma pessoa passa a consumir vídeos alarmistas, seu cluster muda. Se ela interage com mensagens de violência urbana, seu distrito é reconfigurado. Se demonstra simpatia por conteúdos religiosos, imediatamente passa a receber narrativas morais e apelos identitários. Cada toque na tela, cada pausa em um vídeo, cada comentário ou compartilhamento funciona como uma espécie de voto cognitivo: um microgesto que reposiciona o indivíduo dentro do grande mapa emocional do país.

A precisão é tão cirúrgica que o algoritmo sabe antecipar comportamentos antes que o próprio sujeito tenha consciência deles. Ele não apenas observa padrões, mas prediz estados mentais futuros. E, a partir dessas previsões, entrega conteúdos capazes de reforçar, estimular ou manipular esses estados. Uma pessoa que tende a sentir medo à noite recebe conteúdos mais alarmistas depois das 23h. Uma pessoa que demonstra instabilidade afetiva recebe vídeos que reforçam indignação. Uma pessoa que reage a estímulos religiosos recebe mensagens políticas disfarçadas de pregação. Cada entrega é um cálculo, cada cálculo é uma aposta sobre como moldar o próximo passo emocional do indivíduo — e isso é o coração do distrito digital.

Essa engenharia é profundamente material. Não é uma abstração psicológica ou uma metáfora da comunicação. É um mecanismo concreto, estruturado em bancos de dados, modelos estatísticos e sistemas de recomendação que constituem, na prática, aparelhos privados de hegemonia. Não é preciso que um político ou um partido redesenhe mapa algum: as plataformas fazem isso sozinhas, como parte de seu modelo econômico, que depende da maximização de engajamento emocional para gerar lucro. Ao mesmo tempo, grupos políticos e econômicos apenas aproveitam essa infraestrutura e pagam para direcionar mensagens específicas para cada distrito mental construído pelo algoritmo.

Na prática, esses distritos não têm nome, mas têm função. Há o distrito do medo, o distrito da raiva, o distrito da fé, o distrito do ressentimento, o distrito da performance de classe média, o distrito do antipetismo moralizado, o distrito militarizado, o distrito conspiratório. Cada um recebe uma dieta informacional própria, ajustada para reforçar emoções que favorecem determinados posicionamentos políticos. Não se trata de persuadir racionalmente; trata-se de posicionar emocionalmente.

Esse é o ponto crucial: o distrito digital não organiza votos. Ele organiza afetos. E, ao organizar afetos, organiza percepções. E, ao organizar percepções, organiza escolhas políticas. A democracia continua existindo formalmente, mas sua base cognitiva está sendo redesenhada em tempo real por sistemas que não pertencem à sociedade brasileira e que podem ser acionados por interesses nacionais e estrangeiros sem qualquer tipo de controle público.

Assim, os distritos eleitorais digitais não são apenas uma evolução do gerrymandering. Eles são a forma superior da manipulação política contemporânea: uma tecnologia capaz de transformar emoções em território, comportamento em mapa e vulnerabilidade humana em ferramenta de disputa eleitoral. É nessa engrenagem que o Brasil está preso.

Como se manipula a Mente

A engrenagem do gerrymandering digital só funciona porque opera no ponto mais vulnerável e mais determinante da vida social: a mente humana. Ao contrário da propaganda política tradicional, que disputa argumentos, slogans e narrativas, o sistema atual disputa estados emocionais, vieses cognitivos e padrões de reação que já existem nas pessoas antes mesmo de qualquer mensagem aparecer. A manipulação é eficaz não porque convence racionalmente, mas porque ativa mecanismos psicológicos automáticos e previsíveis, conhecidos há décadas pela psicologia comportamental, mas agora elevados à escala industrial pelos algoritmos das grandes plataformas.

O primeiro desses mecanismos é o viés de confirmação. Ele faz com que as pessoas procurem, valorizem e recordem apenas informações que reforcem suas crenças prévias. Os algoritmos amplificam esse viés de forma radical. Ao identificar que um sujeito reage com mais intensidade a conteúdos alarmistas, religiosos, conspiratórios ou de indignação moral, o sistema passa a servi-los incessantemente, criando a ilusão de que “todo mundo está falando disso”, mesmo que apenas uma fração mínima da sociedade esteja. O feed se torna um espelho distorcido da própria mente. E quanto mais a pessoa acredita que está “informada”, mais profundamente mergulha dentro da bolha que o algoritmo construiu ao redor dela.

Outro mecanismo decisivo é a heurística da afetividade: o cérebro toma decisões baseadas não na análise racional, mas nas sensações que uma informação desperta. Medo, raiva, repulsa, esperança, devoção religiosa, ressentimento, saudade, orgulho ferido: tudo isso é mensurável, previsível e explorável. Uma pessoa que assiste a vídeos de violência urbana tende a receber mais conteúdos que intensificam sua percepção de ameaça. Uma pessoa que engaja com conteúdos religiosos tende a receber mais mensagens moralizantes que sugerem que a política é uma guerra espiritual. Uma pessoa que demonstra ressentimento social tende a ser exposta a narrativas que identificam inimigos claros e fáceis de odiar. Nesses casos, o algoritmo não sugere informação: ele fabrica atmosferas emocionais.

Esse processo é reforçado pela heurística da disponibilidade. A mente humana tende a considerar mais relevantes e mais verdadeiros os assuntos que aparecem com maior frequência. Não importa se são estatisticamente irreais; importa se são emocionalmente insistentes. Foi assim que comunidades inteiras passaram a acreditar que o Brasil estava à beira do comunismo em 2018, que vacinas causavam doenças em 2020 e que havia um plano secreto para fechar igrejas em 2022. Esses medos não surgiram espontaneamente: surgiram porque milhares de pessoas foram inseridas em distritos cognitivos que repetiam tais narrativas sem descanso. A repetição emocional cria senso de realidade.

O algoritmo também opera como uma máquina de priming, preparando o terreno psicológico para crenças futuras. Antes de uma fake news se espalhar, a plataforma já colocou o indivíduo em estado de alerta emocional, com conteúdos que ativam medo, repulsa sexual, indignação moral ou ansiedade política. Assim, quando a mentira aparece, ela encontra uma mente pronta para absorvê-la. A mentira não vence porque é convincente, mas porque é compatível com o estado emocional que o algoritmo produziu.

No Brasil, isso já se materializou de maneiras extremamente claras. Em 2018, comunidades religiosas foram inundadas por vídeos sobre “ideologia de gênero” e “ameaças à família”, enquanto grupos de jovens homens receberam uma dieta de memes violentos, conteúdos anti-institucionais e discursos militarizados. Em 2020 e 2021, o país assistiu à formação de distritos antivacina que não surgiram de ignorância, mas de um ambiente emocional cultivado por semanas de conteúdos alarmistas. Em 2022, bolhas bolsonaristas receberam mensagens que sugeriam fraude eleitoral meses antes da eleição, criando a percepção de que o resultado seria ilegítimo antes mesmo da contagem dos votos. A psicologia antecedeu a política.

A manipulação só é possível porque o algoritmo conhece o indivíduo melhor do que ele próprio. Ele sabe quanto tempo a pessoa fica olhando para uma imagem de violência. Sabe quais palavras a fazem hesitar. Sabe que tipo de humor a desarma. Sabe qual música a faz sentir saudade. Sabe qual medo é capaz de paralisá-la. Cada reação é convertida em dado. Cada dado se torna predição. Cada predição se converte em influência. E, a partir dessa cadeia, a plataforma constrói a narrativa política mais eficaz para aquele sujeito específico.

É assim que se manipula não apenas a opinião, mas o próprio processo cognitivo que antecede a opinião. Não se disputa mais o voto; disputa-se a mente que vota. O algoritmo transformou o inconsciente político da sociedade em terreno de exploração. E esse é o núcleo do gerrymandering digital: reorganizar emoções para reorganizar o país.

Um novo crime eleitoral

O gerrymandering digital não é apenas um problema de comunicação ou uma distorção algorítmica. Ele é, na essência, um novo tipo de crime eleitoral. No passado, comprar votos exigia dinheiro vivo, cabos eleitorais, transporte irregular de eleitores e mecanismos visíveis de fraude. Hoje, compra-se algo muito mais valioso e muito mais difícil de detectar: compra-se influência comportamental direcionada, calibrada para cada vulnerabilidade psicológica, entregue em tempo real e com precisão milimétrica. Não é a compra de votos; é a compra de condições mentais que determinam o voto.

Essa manipulação é paga, e é aí que reside seu caráter criminoso. Grupos políticos, think tanks, organizações estrangeiras e empresas privadas adquirem pacotes de segmentação comportamental nas plataformas e direcionam conteúdos específicos para cada distrito cognitivo. A operação é simples: paga-se para que certas narrativas sejam invisíveis para uns e inevitáveis para outros. Paga-se para saturar determinados públicos com medo, ódio, rumores conspiratórios, mensagens moralizantes ou ataques coordenados a instituições. Paga-se para apagar do feed de milhões de pessoas qualquer conteúdo que contrarie a emoção dominante daquele distrito mental. A eleição, nesse modelo, não é disputada; é arquitetada.

Essa arquitetura de influência não se confunde com propaganda eleitoral tradicional. Ela ultrapassa completamente o campo da comunicação política porque atua sem conhecimento, sem consentimento e sem possibilidade de defesa por parte do eleitorado. O cidadão não sabe que está sendo manipulado, não tem como perceber a segmentação invisível e não possui ferramentas para contestar as narrativas que dominam seu ambiente informacional. Ele está exposto a uma forma de engenharia comportamental que transforma o próprio processo cognitivo em campo de manipulação comercial e política.

Do ponto de vista jurídico, isso equivale a manipular a soberania popular em sua fase mais profunda: a fase da formação da vontade. Se a vontade do eleitor é moldada por estímulos pagos, calibrados para atingir emoções específicas e entregues de modo diferenciado para cada grupo, então a igualdade de condições entre os candidatos é destruída. Não existe mais isonomia de acesso à informação. Não existe mais neutralidade do debate público. Não existe mais liberdade real de escolha. O que existe é uma assimetria total entre quem paga para modular percepções e quem tenta disputar ideias em campo aberto.

O caráter transnacional dessa operação torna o problema ainda mais grave. Grupos ligados à extrema-direita dos Estados Unidos, da Europa e de Israel já testaram mecanismos de influência segmentada que chegaram ao Brasil por meio das plataformas. As mensagens não precisam atravessar fronteiras fisicamente; atravessam algoritmicamente. E, quando chegam, se instalam diretamente nos distritos cognitivos formados pelo comportamento do público brasileiro. O país passa a viver sob influência de narrativas, interesses e campanhas que não respeitam soberania, leis nacionais ou instituições democráticas.

No plano material, a manipulação não ocorre no voto, mas no processo de subjetivação política. O eleitor acredita que tomou uma decisão livre, quando, na verdade, foi conduzido a ela por um sistema que explorou seus medos, suas inseguranças, seus preconceitos, sua fé, sua raiva ou seu ressentimento. É uma fraude cognitiva. E uma democracia que permite fraude cognitiva permite a destruição silenciosa da vontade popular.

Por tudo isso, o gerrymandering digital precisa ser reconhecido como crime eleitoral moderno, comparável em impacto à compra de votos, à fraude nas urnas e à sabotagem institucional. Ele rompe a soberania informacional do país, desequilibra a competição política e permite que interesses apoiados por capital estrangeiro manipulem a mente do eleitor sem deixar rastro. Não se trata de debate público; trata-se de intervenção comportamental paga, planejada para moldar o resultado da eleição antes mesmo do início oficial da campanha.

Se o Brasil não enfrentar esse mecanismo agora, entrará em 2026 com a ilusão de liberdade, mas com a democracia sequestrada no nível mais profundo: o da consciência.

2026: O risco máximo

A eleição brasileira de 2026 ocorrerá no momento mais perigoso da história das democracias digitais. Diferentemente de 2018, quando a manipulação algorítmica ainda era uma novidade improvisada, e de 2022, quando a extrema-direita já operava distritos cognitivos avançados, 2026 será a primeira disputa nacional inteiramente influenciada por inteligência artificial generativa, modelos preditivos de comportamento e sistemas de recomendação capazes de modular estados emocionais em escala industrial. O que antes era propaganda política agora é engenharia comportamental. E o que antes era mentira espalhada em massa agora é narrativa produzida sob medida para cada indivíduo.

A IA generativa inaugura um patamar inédito de manipulação porque permite que cada eleitor receba mensagens que parecem ter sido escritas especialmente para ele. A mesma máquina que produz vídeos falsos, áudios hiper-realistas e textos emocionalmente calibrados também aprende, em tempo real, o que faz cada pessoa hesitar, clicar, compartilhar, se irritar ou aderir. Isso significa que o distrito cognitivo deixa de ser apenas um grupo e passa a ser, potencialmente, um indivíduo. A micro-segmentação se transforma em nano-segmentação. O alvo deixa de ser uma categoria social e passa a ser uma pessoa de carne, osso e vulnerabilidades psicológicas específicas.

A radicalização política também será intensificada. Os distritos de medo, de indignação moral, de ressentimento e de antipolítica, já bem estabelecidos desde 2018, entrarão em 2026 mais rígidos, mais emocionalmente isolados e mais predispostos a narrativas de ruptura institucional. A lógica é simples: quanto mais o algoritmo reforça emoções extremas, mais ele alimenta comportamentos extremados. Uma pessoa que recebe conteúdos conspiratórios há quatro anos não chega a uma eleição como alguém que está apenas “mal informado”; chega como alguém que vive num ecossistema político alternativo, com leis próprias, supostos inimigos claros e uma sensação constante de guerra iminente.

Esse é o cenário que mais interessa à extrema-direita global. Ao contrário do que muitos imaginam, o objetivo de seus estrategistas não é convencer a maioria — é desestabilizar a percepção coletiva de normalidade, atacar instituições, corroer confiança na Justiça Eleitoral e criar um ambiente emocional tão polarizado que qualquer resultado desfavorável pareça fraude. Essa estratégia já está declarada por figuras do trumpismo, por think tanks conservadores nos EUA, por influenciadores que orbitam Israel e pelo ecossistema internacional que apoiou Bolsonaro. O Brasil é visto como laboratório geopolítico, e 2026 será o experimento mais perigoso.

A ofensiva não virá apenas de dentro. Plataformas estrangeiras, operadas a partir de centros tecnológicos nos Estados Unidos e na Ásia, terão papel central. Seus algoritmos continuam sendo caixas-pretas opacas, incapazes de auditoria pública e integradas a interesses políticos e econômicos que não coincidem com os do Brasil. Em ano eleitoral, pequenas alterações em recomendações, índices de relevância, sistemas de engajamento ou prioridades de conteúdo podem alterar a percepção de milhões de pessoas. A arquitetura que media a democracia brasileira não pertence ao Brasil. E isso é uma vulnerabilidade estrutural.

Diante desse cenário, 2026 representará o ápice da combinação entre gerrymandering digital, guerra híbrida, IA generativa e radicalização emocional de massas. Não se trata apenas de risco eleitoral, mas de risco sistêmico à estabilidade institucional. Um país submetido a distritos cognitivos radicalizados pode reagir de forma violenta diante de qualquer tensão. O ambiente perfeito para tumultos, atos antidemocráticos, rejeição de resultados, sabotagens informacionais e movimentos de massa orientados por narrativas fabricadas fora do controle nacional.

É por isso que afirmo: 2026 será um ponto de inflexão. Se o Brasil não compreender os riscos, poderá enfrentar não apenas manipulação eleitoral, mas uma tentativa coordenada de desgaste institucional que envolve atores nacionais e estrangeiros. Se compreender, poderá se tornar um dos primeiros países do mundo a defender sua soberania cognitiva e transformar a eleição em marco global de resistência democrática.

O que o Brasil precisa fazer agora

Se o gerrymandering digital reorganiza o território cognitivo da nação, a primeira tarefa do Brasil é reconhecer que estamos diante de uma ameaça estrutural à democracia e à soberania, e não de um mero “problema de fake news”. A resposta não pode ser moralista, nem tímida, nem burocrática. Ela precisa ser estratégica, jurídica, tecnológica e institucional, no mesmo nível de sofisticação da ameaça. Não basta reagir a cada mentira viral; é preciso reconfigurar o campo de batalha em que a disputa política acontece.

O ponto de partida é a Justiça Eleitoral. O TSE precisa incorporar explicitamente, em sua doutrina e em suas resoluções, o entendimento de que a manipulação algorítmica do fluxo informacional, quando financiada para fins eleitorais, constitui uma forma de fraude da vontade popular. Assim como a compra direta de votos já é crime, a compra de influência comportamental segmentada, baseada em dados sensíveis e emoções vulneráveis, precisa ser tratada como compra indireta da consciência do eleitor. Isso significa proibir ou restringir severamente o microtargeting político comportamental, exigir transparência total dos critérios de segmentação em anúncios eleitorais e punir com rigor candidatos, partidos, empresas e intermediários que utilizem dados pessoais para modular emoções e crenças de forma oculta.

Em paralelo, o Congresso Nacional deve compreender que regular plataformas não é “censura”, mas uma forma moderna de garantir isonomia democrática. Isso implica criar um marco legal que trate as grandes empresas de tecnologia como infraestruturas críticas da vida pública, com obrigações proporcionais ao poder que exercem. Entre essas obrigações estão: auditoria independente de sistemas de recomendação em períodos eleitorais; transparência sobre quem paga por anúncios políticos, para quais perfis são entregues e com base em quais critérios; proibição do uso de dados sensíveis, como religião, orientação política, estado emocional inferido ou condições de saúde, para fins de propaganda. A liberdade de expressão individual precisa ser preservada. O que deve ser regulado, com firmeza, é o uso industrial da manipulação comportamental paga.

O Executivo, por sua vez, precisa tratar a soberania informacional como questão de segurança nacional. Isso significa construir capacidade técnica própria para monitorar, analisar e responder a operações de guerra informacional, internas e externas. Um país que não consegue enxergar em tempo real como narrativas são distribuídas, quais grupos estão sendo inflados emocionalmente e quais distritos cognitivos estão sendo ativados, entra em qualquer eleição em posição de vulnerabilidade. É urgente criar centros públicos de inteligência comunicacional, articulando universidades, institutos de pesquisa, órgãos de Estado e sociedade civil, capazes de mapear fluxos informacionais e identificar padrões de manipulação antes que eles explodam em crises políticas.

Ao mesmo tempo, o país precisa investir em alfabetização midiática e cognitiva, não como panaceia ingênua, mas como parte de uma estratégia de longo prazo. As pessoas têm direito de saber que seus medos, sua fé, sua raiva e seu ressentimento podem estar sendo explorados deliberadamente por máquinas e por interesses políticos. Precisam entender o básico: que o feed não é um espelho neutro da realidade, que a sensação de “todo mundo pensa assim” pode ser apenas uma curadoria algorítmica, que vínculos emocionais intensos com certas narrativas podem ter sido produzidos artificialmente. Não se trata de criar um cidadão “imune à propaganda”, o que é impossível, mas de reduzir a assimetria brutal entre quem manipula e quem é manipulado.

Nada disso será suficiente se o debate público continuar reduzido a slogans sobre “liberdade de expressão”. A verdadeira questão não é se alguém pode postar uma opinião, mas quem controla a arquitetura que decide quais opiniões circulam, com que intensidade e para quais mentes. Democracia não é apenas o direito de falar, é o direito de não ter a própria percepção sequestrada por sistemas opacos desenhados para maximizar lucro e, por consequência, polarização. Um Estado que abandona seu povo à mercê dessas máquinas abdica de seu dever básico de proteger a integridade da vida pública.

Por fim, a sociedade civil organizada, a imprensa responsável, os movimentos democráticos e o campo progressista precisam entender que a luta contra o gerrymandering digital não é uma pauta técnica, restrita a especialistas. É uma frente de defesa da própria possibilidade de futuro democrático. Não basta denunciar fake news; é preciso denunciar o modelo de negócios que transforma a mente em mercadoria e a subjetividade em campo de exploração eleitoral. É preciso exigir transparência, pressionar por regulação, apoiar iniciativas de soberania tecnológica, fortalecer pesquisas independentes e produzir, também nas redes, contra-hegemonias informacionais que resgatem a centralidade da realidade material contra a avalanche de simulacros.

O Brasil ainda tem tempo. A eleição de 2026 ainda não chegou, mas a guerra pelo território cognitivo já está em curso. Cada dia sem reação é um dia em que distritos mentais são consolidando, afetos são cristalizados, percepções são distorcidas e a democracia é corroída silenciosamente, por dentro. Enfrentar o gerrymandering digital agora é a condição mínima para que, quando o eleitor digitar seu voto, esse gesto ainda tenha algo de verdadeiramente livre.

Conclusão — O cartógrafo invisível da democracia

A democracia moderna sempre dependeu de mapas. No passado, eram mapas físicos, traçados à caneta por legisladores interessados em manipular fronteiras para favorecer determinados grupos. Hoje, o mapa crucial não é geográfico, mas cognitivo. Ele não é desenhado por políticos, mas por algoritmos. Não está guardado em cartórios nem em tribunais; está distribuído nos servidores das grandes empresas de tecnologia, que redesenham incessantemente o terreno emocional onde cada cidadão vive sua experiência política cotidiana. O cartógrafo da democracia contemporânea não é humano. É um sistema que mede, prediz e explora padrões mentais com o objetivo de maximizar engajamento e, como efeito colateral devastador, modular comportamento político.

Esse cartógrafo invisível não reorganiza distritos físicos, mas distritos afetivos. Ele não agrupa pessoas por bairros, mas por medos, inseguranças, crenças religiosas, gatilhos morais, ressentimentos e vulnerabilidades cognitivas. E, ao fazer isso, transforma o processo eleitoral em algo fundamentalmente assimétrico: alguns cidadãos vivem em ambientes informacionais equilibrados, enquanto outros são inundados por narrativas que reforçam emoções extremas, ampliam percepções distorcidas e corroem a capacidade de julgamento crítico. O voto é secreto, mas a emoção que antecede o voto é manipulável. E é essa manipulação silenciosa, sofisticada e invisível que coloca as democracias em risco.

Se o Brasil não enfrentar essa realidade com a seriedade que ela exige, chegará a 2026 com uma eleição formalmente livre, mas materialmente comprometida. A disputa não será entre ideias, mas entre ecossistemas psíquicos radicalmente diferentes. A crítica, o debate e o dissenso terão sido substituídos por zonas de afeto altamente controladas, criadas para ativar as emoções mais lucrativas e, muitas vezes, mais destrutivas. A hegemonia não aparecerá como projeto político, mas como sensação espontânea, como “verdade emocional” fabricada no interior de bolhas cognitivas.

A boa notícia é que ainda há tempo. Quando uma sociedade reconhece que está sendo manipulada, dá o primeiro passo para recuperar sua autonomia. Quando um Estado entende que sua soberania informacional está em disputa, pode construir mecanismos para defendê-la. E quando instituições democráticas passam a ver algoritmos como agentes políticos de fato, e não como meras ferramentas neutras, podem regulamentar, auditar e limitar seu poder. A História mostra que nenhum mecanismo de dominação é absoluto: todos podem ser desarmados quando nomeados, denunciados e enfrentados coletivamente.

Mas é preciso agir agora, não quando a próxima crise acontecer. Agora. Antes que o mapa mental do país seja totalmente controlado por máquinas que não respondem à sociedade brasileira. Antes que a opinião pública seja definitivamente substituída por percepções fabricadas. Antes que a democracia se torne apenas um ritual formal, esvaziado de sua substância.

O Brasil precisa recuperar a capacidade de decidir seu próprio destino. E isso só será possível quando compreendermos que o território mais disputado da política contemporânea não é o espaço físico, mas a mente humana. Se quisermos proteger o país, precisamos proteger o cidadão da manipulação invisível que molda sua percepção sem que ele perceba. Precisamos enfrentar o cartógrafo silencioso que desenha o país dentro de cada pessoa.

Defender a democracia, hoje, significa defender a soberania cognitiva. E esse é o desafio histórico do Brasil.