Em 2019 quando lancei o livro da "A 'indústria' dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo" eu chamei a atenção para o papel do setor de eventos (incluindo futebol e mega shows) para a hegemonia financeira e a racionalidade neoliberal em curso.
Blog do Roberto Moraes
67 anos, professor titular "sênior" do IFF (ex-CEFET-Campos, RJ) e engenheiro. Pesquisador atuante nos temas: Capitalismo de Plataformas; Espaço-Economia e Financeirização no Capitalismo Contemporâneo; Circuito Econômico Petróleo-Porto; Geopolítica da Energia. Membro da Rede Latinoamericana de Investigadores em Espaço-Economia: Geografia Econômica e Economia Política (ReLAEE). Espaço para apresentar e debater questões e opiniões sobre política e economia. Blog criado em 10 agosto de 2004.
terça-feira, julho 21, 2026
Como se desenvolve a hegemonia financeira e o rentismo ligados ao negócio futebol, demais eventos esportivos e mega shows no espaço global
Em 2019 quando lancei o livro da "A 'indústria' dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo" eu chamei a atenção para o papel do setor de eventos (incluindo futebol e mega shows) para a hegemonia financeira e a racionalidade neoliberal em curso.
quinta-feira, junho 04, 2026
Pix e o esperneio de Trump + clã Bolsonaro: números do Pix e dos cartões em 2025
A concorrência direta entre o Pix e os cartões de crédito como fazem os EUA além de um esperneio infantil, é aberração contra a inovação e em defesa do monopólio e do imperialismo digital. Algo do tipo, só vale inovação minha e não a dos outros, acabou a brincadeira e o jogo, porque afinal de contas, bola da tecnologia é minha, sic.
O Pix além de meio de pagamento é uma infraestrutura para digitalização das transações e também para a transferência de dinheiro. Se trata de ofertas de serviços por diferentes companhias que convivem com várias outras opções. A China tem o WeChat da Tencent e o AliPay da Alibaba que são empresas privadas entre outras opções. E agora, através da propaganda e vassalagem do clã Bolsonaro, se sabe que os EUA têm o Zelle, o pix dos Brothers do Norte, um sistema marginal que não tem tração.
Numa breve análise é oportuno pesquisar alguns números. Segundo o
Banco Central do Brasil, o Pix conta hoje com mais de 170 milhões de usuários
cadastrados (cerca de 80% da população brasileira) e 16 milhões de empresas,
ultrapassando a marca de 598 milhões de contas ativas. Mensalmente, mais de 63%
de toda a população utiliza o sistema de pagamentos instantâneos.
Segundo o BC, em 2025, o Pix movimentou R$ 35,4 trilhões
(+34% que os R$ 26,4 trilhões de 2024) em 80 bilhões de transações (+ 25% que as
63,8 bilhões de transações em 2024). Já os cartões
movimentaram apenas R$ 4,5 trilhões, mesmo que um volume maior que os R$ 4,1
trilhões de 2024, porém quase oito vezes menos que a movimentação através do
Pix.
Em 2025, as 45,7 bilhões de
transações em cartão também foram 75% menores que as 80 milhões de transações
com o Pix. Ou seja, em volume de
dinheiro, o PIX movimentou quase oito vezes mais e em transações 75% a mais que
as operadoras de cartão. Em 2024 os cartões tinham realizado 45,7 bilhões
de transações contra 63,8 bilhões do Pix.
Em 2025, dentro dos R$ 4,5
trilhões movimentados pelas operadoras de cartão (10% a mais que 2024), R$ 3,1
trilhões foram na mobilidade de crédito, R$ 1 trilhão em débito e R$ aproximadamente
R$ 400 bilhões em cartão pré-pago.
Considerando a média que fica
retida pela bandeira do cartão de aproximadamente 2,2% no crédito e 1% no
débito, é possível estimar o quanto essas grandes companhias de cartão (em
especial as maiores as americanas MasterCard e Visa) obtêm de receita, que
depois vai alimentar o envio dos lucros, após reduzidas as despesas, para as
suas matrizes nos EUA.
Em 2025, a conta destas receitas das operadoras dos
cartões no Brasil ficou em aproximadamente R$ 80 bilhões ou US$ 16 bilhões, a
maior parte enviada como lucro aos EUA, sede das bandeiras dos cartões de crédito
e origem da chiadeira de Trump e dos EUA na sua imperial taxação ao Brasil. Em
2024 essa conta foi de aproximadamente R$ 75 bilhões. Sendo assim, apenas nos dois últimos anos, o lucro que essas bandeiras tiveram no Brasil esteve na casa dos R$ 150 bilhões ou US$ 30 bilhões.
O engasgo dos brothers do Norte com o Pix
O universo dos cartões de crédito
no Brasil é gigantesco. Agora em 2026, já somam 243 milhões de cartões de crédito existentes no Brasil. As
bandeiras de cartão mais fortes e presentes no Brasil até aqui são das
americanas Mastercard e Visa que somam
90% do total. Sendo 126 milhões com Mastercard e 90 milhões com a Visa, Os
10% restante estão distribuídos com Elo (EloPar), American Express, Caixa etc.
Segundo informações da Abecs (Associação
Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços, o mercado de cartões começou
a ser operado no país através dos grandes e tradicionais bancos e hoje são
também emitidos por centenas de bancos digitais, fintechs e grandes redes de
varejo.
Numa rápida conta de padaria usando a regra de três é possível estimar que se as operadoras de cartões operassem
com os valores que hoje passam pelo Pix, considerando uma taxa média de apenas
1,5% (lembrando que no crédito é de 2,2% e no débito 1%), elas teriam uma
receita de mais R$ 500 bilhões ou US$
100 bilhões.
Vale lembrar que até setembro de 2025, o impacto do Pix foi sobre o pagamento no cartão via débito em conta, quando o
BC colocou em vigor a funcionalidade do parcelamento via Pix. O BC ainda não
divulgou números de transações de Pix Parcelado de forma isolada em suas estatísticas
do Pix, porém, se sabe que isso impactará os cartões, cujas operações na
modalidade crédito equivalem a quase 70% do total. Esse é outro grande motivo
do esperneio de Trump contra as inovações tecnológicas do Brasil. Inovação só
vale para eles. Sem competição e com o monopólio exclusivo das corporações dos
EUA.
Trump-Bolsonaro não está só defendendo as operadoras de cartão, mas as
Big Techs
Para fechar cito duas outras
importantes reclamações dos EUA sobre essa questão das transações financeiras e
dos meios de pagamento que envolve o Pix. A defesa que Trump e sua trupe fazem, não é apenas das
companhias operadoras de catões de crédito dos EUA, é também, e em especial,
das Big Techs americanas que, em 2024, faturaram R$ 144 bilhões no Brasil e
enviaram R$ 80,3 bilhões (55% do seu faturamento) em lucros para suas sedes no
exterior.
Com o Pix, as operadoras de
cartão e as Big Techs que as operacionalizam em boa parte, deixam de recolher
os zilhões (muitos bilhões) de dados dos brasileiros que usavam apenas cartões
para as suas compras. Dados sobre quem compra o quê, de quem, onde, em que
quantidade, quando etc que deixam de ser extraídos e migrados gratuitamente
para os EUA e ficam armazenados sob controle do Banco Central. Esses dados
valem outros tantos US$ bilhões.
Outra reclamação é que o Pix chegou
um pouco antes do Facebook, a Big Tech Meta, que possui cerca de 110 milhões de
usuários ativos no Brasil e pretendia usar o Facebook Pay, agora chamado de
Meta Pay. Só que agora a Meta não consegue competir no mercado porque o Pix é uma
infraestrutura pública e gratuita fornecida pelo Banco Central aos brasileiros, como um direito soberano.
Plataformização e dataficação como parte da hegemonia financeira
Mais que observar esses movimentos
entre agentes, os números e as estratégias é preciso entendermos o processo em
curso. Em linhas gerais se identifica que se trata de um percurso que se ampliando
dia a dia com maior digitalização, dataficação, infraestruturas digitais, nuvens
(clouds), redes neurais, computação quântica, IA Generativa e /ou Super IA etc.
É um processo que traz evidências da hegemonia financeira no mundo
contemporâneo
A propriedade e a fluidez do
dinheiro sem a necessidade do papel-moeda, só como informação concentrada e, ao
mesmo tempo, fluida. É fato que a digitalização promove inclusão bancária e
financeira, mas acima de tudo amplia a fluidez do capital, como mais uma das
dezenas de contradições e paradoxos que se observa no capitalismo contemporâneo.
As finanças e a tecnologia nascem
da mesma costela e possuem o mesmo DNA. O setor de finanças tem sido o primeiro
e maior usufrutuário do desenvolvimento da tecnologia digital nesse percurso já
de mais de quatro décadas com profundas desigualdades e assimetrias.
Não devo encerrar sem pelo menos lembrar
- e destacar - um importante resgate histórico. O Brasil é um dos precursores
no mundo na informatização dos bancos, num processo depois copiado e ampliado,
mundo afora, já como digitalização com uso de vários tipos de plataformas.
Um processo que passamos a chamar
genericamente de plataformização, como infraestrutura de intermediação (meio de
produção e meio de comunicação) conectando de forma online e ininterrupta todos,
durante todo o tempo e em qualquer lugar, sejam cidadãos, produtores,
consumidores, fornecedores ou apanhadores de crédito, demandadores e ofertantes
de serviços, etc.
Enfim, parodiando o personagem Hamlet de Shakespeare, há mais coisas entre o Pix, as operadoras de cartões de crédito, as Big Techs e os arroubos imperiais de Trump e do clã Bolsonaro do que supõe a nossa vã filosofia.
PS.: Atualizado às 02:20 de 05/06/2024: Para corrigir o valor do movimentação do Pix em 2025 R$ 35,4 trilhões e em 2024 R$ 26,4 trilhões e não bilhões como saiu publicado erradamente.
quinta-feira, maio 28, 2026
12+ Big Techs chegam a US$ 31,2 trilhões e passam o PIB dos EUA
O valor de mercado das 12 maiores corporações de tecnologia (Big Techs) com ações em bolsa no mundo, chegaram hoje a colossal quantia de US$ 31,2 trilhões e, assim, passaram o PIB dos EUA que em 2025 foi de US$ 30,7 trilhões.
Embora sejam coisas distintas, um é estoque e inclui capital especulativo (fictício) e outro fluxo da riqueza de um país, a comparação é simbólica e importante para interpretar o gigantismo e a oligopolização do setor de tecnologia no mundo contemporâneo.Na lista das 12+ Big Techs não consta muitas grandes corporações de tecnologia chinesa que hoje rivalizam e são uma espécie de espelho de muitas das Big Techs americanas, mas não têm capital aberto em bolsas, o que elevaria ainda mais a conta do valor total das maiores Big Techs e a concentração desse setor em relação aos demais.
A liderança entre as 12+Big Techs segue com a americana NVidia, fabricande de chips (microprocessadores) que está valendo U$ 5,1 trilhões. Há poucos dias a NVidia chegou até a US$ 5,4 trilhões.
Outra novidade é a inclusão das fabricantes de chips que ontem (27/05/2026) passaram ao clube das companhias com valor de mercado superior a US$ 1 trilhão, a coreana SK Hynix e a americana Micron Technology, levando o quadro de dez para doze Big Techs na lista.
as corporações de tecnologia com capital fechado da China, a lista com as 12 maiores tem a presença de três empresas da Ásia: a taiwanesa TSMC e as coreanas do sul, a Samsung e a SK Hynix. Identifica-se ainda que não há presença nessa lista das 12+ nenhuma companhia europeia ou de outro continente.
Outra observação a destacar é que a valorização das corporações fabricantes de semicondutores (chips ou microprocessadores) já equivale à metade - seis entre as doze da lista - : NVidia, TSMC, Broadcom, Samsung, SK Hynix e Micron. Observa-se que essas companhias têm crescido proporcionalmente mais, em valor de mercado, que as outras da lista das 12+ Big Techs.
Vale ainda destacar que há cerca de quatro anos a soma de valor de mercado destas corporações equivalia a menos de 1/3 do valor que elas chegaram na atualidade.
É inegável que a corrida pela IA e Super IA está nas bases desta loucura que concentra boa parte dos investimentos das grandes gestoras de fundos que hohe controlam boa parte destas corporações de tecnologia, em especial nos EUA.
No geral, segue o sentimento de que todo esse gigantismo reflete uma bolha, porque a digitalização/dataficação não teria, segundo avaliações de muitos estudiosos do tema, como entregar resultados nas proporções que os investidores e fundos que controlam esses ativos esperam.
Porém é fato que os números não param de crescer em valores que mostram que não há paralelo na história com tamanha acumulação e concentração num único setor, mesmo que ele seja transversal e atravesse os demais e em diferentes territórios espalhados pelo mundo.
quarta-feira, maio 20, 2026
Itaú e Bradesco correm pela liderança no uso de IA no mercado financeiro brasileiro
Tenho dito e insistido que o setor financeiro é, em todo o mundo, em especial no Ocidente, o primeiro demandador, maior incentivador e usuário das novas tecnologias digitais, incluindo a IA generativa. Tecnologia e finanças nasceram da mesma costela e possuem o mesmo DNA.
O Bradesco entre os grandes
bancos (“bancões”) brasileiros foi o que saiu mais atrasado nessa corrida,
desde quando esse processo era chamado de “informatização bancária” na distante
década de 80. Pode parecer estranho, mas nesta época, o Brasil esteve entre os líderes
deste processo em todo o mundo. Há cerca de uma década, o Bradesco vem
acelerando a corrida atrás do prejuízo e passou a chamar esse processo não de “transformação
digital”, como fazem outras companhias, mas usando uma nomenclatura mais
radical: “desmaterialização".
Assim, o Bradesco decidiu des-terceirizar (contratar diretamente) sua expressiva equipe de TI com cerca de 11 mil trabalhadores (13,5% de sua força de toda sua força de trabalho). A decisão visa evitar a perda de pessoal qualificado. Além disso, o Bradesco passou a usar a IA Generativa já há alguns anos e, mais recentemente, também o blockchain e a computação quântica. Se tratam de movimentos de incorporação de tecnologias que possuem enorme dependência do recurso das nuvens (clouds) que hoje opera cerca de metade da carga operacional do banco.
Mirando incrementar a
digitalização/dataficação, o Bradesco deu alguns saltos com a aquisição de
várias startups, cujas tecnologias e serviços foram logo incorporadas às suas
operações. Desde 2017, o Bradesco lançou sua própria fintech, a Next e, a
partir de 2022, seu sistema digital já passou a permitir o uso de pix por
whatsapp, época em que também passou a usar agentes de IA (software autônomo) em
várias de suas operações, em especial no atendimento aos clientes, recomendações
de investimentos, engenharia de software entre outros.
Enquanto isso, o Itaú anunciou
agora, no dia 5 maio de 2026, em seu evento Meet Itaú Tech, a ampliação em 88%
do uso de IA Generativa e passou a considerar esta como “a tecnologia ou camada
estrutural da operação de todo o banco". Como parte da aceleração de sua
digitalização, o Itaú ampliou nos últimos meses, o crescimento de 35% do uso de
Machine Learning e passou a ter quase
70% da carga de suas operações nas nuvens (cloud).
[1]
Recentemente, o Itaú também formalizou
a criação da “plataforma Iara” com a função de organizar todo o uso de IA no
banco: “centralizar modelos, bases de conhecimento, memória persistente e
mecanismos de governança”. No evento, o Itaú informou ainda que entre 2018 e
2026 aumentou em 2.800% o volume de atualizações tecnológicas e recentemente
identificou uma redução de 44% no custo unitário de seus processamentos.
Para o cliente, o banco informa
que essas iniciativas aparecem sob a marca “inteligência Itaú” que já atende 5
milhões de correntistas, ofertando possibilidades como emissão de pix a partir
de textos, áudios, voz ou imagem pelo WhatsApp, sem precisar ir ao aplicativo
do banco.
Outro movimento estratégico do
Itaú foi a criação do Instituto de Ciência e Tecnologia (CTI) com objetivo de ter
diretamente sob seu controle uma estrutura voltada à pesquisa aplicada em
tecnologias emergentes. O CTI possui 200 pesquisadores atuando principalmente nas
áreas de IA Gen, computação quântica, robótica e realidade estendida, além de
parcerias com instituições como a USP, MIT e universidade de Stanford nos EUA.
Evidências da digitalização
dos bancos e do setor financeiro na busca por maiores lucros e máxima fluidez do
capital
O setor bancário é parte do
sistema financeiro capitalista, onde a oferta de crédito sempre determinou a
aceleração da economia, só que o movimento de creditício vem sendo
paulatinamente substituído pela máquina das dívidas e do endividamento como
motor de arrasto da produção e da economia.
A informatização do setor financeiro
com uso intenso da tecnologia digital traz vantagens para o usuário, mas beneficia
muito mais aos donos dos dinheiros, porque facilita a intermediação bancária e
a capitalização dos investidores com crescente redução dos custos. Além disso,
também possibilita a ampliação da desejada inclusão bancária, junto com o
número de consumidores que, em síntese, é o que faz a espiral do capitalismo girar
e subir, arrancando a riqueza do território, onde acontece a produção material
e o ciclo de reprodução social, base da pirâmide do movimento do capital.
Os avanços em 3/4 décadas de
digitalização bancária foram colossais. Na década de 70 apareceu o cartão de
crédito. Na década de 80 surgiram os primeiros caixas eletrônicos (ATM –
Terminal de Autoatendimento) e, logo depois, o Caixa 24 horas. Em 1990, a
digitalização avançou para o uso de boletos com os códigos de barra. Logo
depois, em 1995, foi disponibilizado o Internet Banking, levando o acesso ao
banco para as casas e para o trabalho dos correntistas.
Em 2008 apareceu o 1º aplicativo
de banco para uso nos celulares e, em 2010, a primeira Fintech. Em novembro de
2020 o Banco Central lançou o Pix. Assim, em 2025, já assistíamos a explosão do
Mobile Banking com 200 bilhões de transações por celular, o maior canal de
movimentação financeira do Brasil, em que 90% das transações são feitas por plataformas
móveis. [2]
Agora, no 1º trimestre de 2026, o
Brasil já possui 170 milhões de usuários de Pix (cerca de 80% da população),
sendo 160 milhões como pessoas físicas. Nesse mesmo período, o BC registrou 7
bilhões de operações com Pix (56%) ultrapassando as 5,4 bilhões de operações
com cartão de crédito (44%). [2] [3]
Segundo o estudo Tecnologia Bancária da Febraban/Delloite 2025, nos últimos 5 anos, os investimentos em tecnologia bancária cresceram 79% no Brasil, saindo de R$ 26,7 bilhões em 2020 para R$ 47,8 bilhões em 2025 (previsão, já que em 2024 foi de R$ 42,3 bilhões). Isso significa que em 5 anos os investimentos em tecnologia nos bancos brasileiros chegaram a R$ 196 bilhões. Os investimentos têm sido, prioritariamente, nas área de IA e GenIA; computação em Nuvens (Cloud) e Big Data Analytics, com foco: "eficiência operacional; personalização da experiência dos clientes; segurança e resiliência do sistema financeiro".
Essa realidade empírica mostram as evidências sobre o
aumento expressivo do uso da digitalização bancária e de todo o setor financeiro, onde se
observa a utilização cada vez mais intensa de pacotes de dados e da IA. Os
dados servem para análise de riscos, regularidade de pagamento, atração de
investidores para capitalização e clientes para empréstimos consignados ou não.
Assim, observa-se a ampliação da
dataficação com os usos de diferentes conjuntos de dados dos clientes dos
bancos e do mercado financeiro, que acabam dependendo deles para estruturar
suas operações e suas decisões. Quanto maior e mais célere o fluxo do dinheiro
maior é a captura e extração de valores pelos agentes financeiros.
Nessa sequência, a computação
quântica também já vem sendo utilizada em modelagens de negócios financeiros e
de títulos, em especial no mercado de capitais e entre as gestoras dos fundos financeiros
que fazem previsão de suas rentabilidades quase que online [5]. Desta forma, o
sistema passa a operar quase que de forma autonomia, com os agentes de IA definindo
taxas de juros e fazendo simulação da rentabilidade para os diferentes tipos de
ativos matérias ou financeiros.
Digitalização, plataformização, fintechização e assetização
Esses movimentos dos dois grandes
bancos brasileiros na direção da radicalização do uso das tecnologias digitais são
apenas breves demonstrações sobre como o setor financeiro é o primeiro e maior
usufrutuário do avanço das tecnologias digitais e da IA em todo o mundo. Os
demais bancos e as centenas de fintechs autorizadas pelo Banco Central (BC)
seguem caminhos similares conforme suas possibilidades de investimentos em
tecnologia.
Não é diferente do que vem
acontecendo no mercado de capitais (acionário), fundos financeiros e entre as fintechs
(que juntam nesse acrônimo, já bem conhecido), as finanças com a tecnologia.
Porém, vale observar que tudo
isso vem ocorrendo exatamente nesse momento em que a hegemonia ou a dominância
financeira se impõem sobre o controle e fluxos dos ativos em boa parte do
mundo.
Aliás, a ideia de ativo vem dessa
lógica da “assetização” (Langley, 2020) [6] e do rentismo. Sob o controle das
gestoras de fundos tem em sua órbita os ativos da economia real (indústrias,
produção de alimentos, infraestruturas de circulação (logística com portos,
aeroportos, ferrovias e rodovias) e os serviços.
Por outro lado, mas em
articulação à economia real se desenvolveu e cresceu o circuito dos papeis,
títulos, debêntures, mercados futuros da outra lógica que é o do capital
fictício e da financeirização cada vez mais hegemônica
Juntos, os dois circuitos
produzem uma “espiral de acumulação infindável” (Harvey, 2018) [7] e demonstra
o capital em movimento. Uma espiral em movimento circulares e ascendentes, tipo
helicoidal, em torno do capital, que mistura valorização (economia real) com a capitalização
que se desenrola no mundo das finanças.
Big Money e Big Tech como chaves do tripé do capitalismo contemporâneo
A digitalização tem servido a
vários propósitos, desde o e-commerce com a plataformização, a comunicação das
mídias sociais e muitos outros usos que crescem dia a dia. A dataficação se
tornou um novo fator de produção com diversas utilizações possíveis, levando a
um ritmo muito acelerado de inovação. [8]
Nesse sentido, não faz sentido
repetir os ludistas no início da revolução industrial quebrando as máquinas e
freando a tecnologia. O público em geral deseja ter as facilidades geradas pela
tecnologia, mas é preciso entender a quê e a quem ela ter servido quando se
desenvolve de forma quase completamente desregulada.
O controle sobre esses processos
precisa ser melhor observado. Não é possível aceitar a baixa regulação que vem
permitindo um fluxo de capitais sem fronteira, quase sem nenhum controle,
ampliando a oligopolização, as desigualdades econômicas e ao controle quase
total do Big Money que acaba por moldar as Big Techs.
O Big Money articulado às Big
Techs ajuda a explicar a hegemonia do capital financeiro. Da mesma forma que o
controle da tecnologia se hierarquizou e se concentrou o mesmo tende a
acontecer com o sistema financeiro e os bancos nacionais. Crescem os riscos de
oligopolização e centralização do setor bancário, a partir das relações
transfronteiriças do capital e da colossal fluidez possibilitada pela
digitalização.
Os próprios organismos
internacionais do setor financeiro vêm alertando continuamente para os riscos e
os desafios para lidar com o controle do fluxo de dinheiro diante da fluidez do
capital e do incremento das moedas digitais e criptomoedas (stablecoins), surgidas a partir do
avanço e da utilização cruzada e intensiva das tecnologias digitais, nuvens, blockchain,
IA, IA Gen e computação quântica.
Na atualidade vivemos o que tenho
chamado de um “tripé do capitalismo contemporâneo” sustentado nos pilares da
digitalização/dataficação como etapa contemporânea da reestruturação
financeira; segundo da hegemonia e dominância financeira; e concluída pela
racionalidade neoliberal que articula e justifica esses movimentos da
atualidade. Observar o fenômeno em sua totalidade é imprescindível, mas é
preciso ir além.
PS.: Atualização às 16:46 de 22 de maio de 2026 para acrescentar os dados da pesquisa Febraban sobre Tecnologias Bancárias 2025.
Referências:
[1] Meetup Itaú Tech 2026 – 5 de maio de 2026. IA na engenharia de software. IA agêntica. Meetup Itaú Data – canal no YouTube. Disponível em: https://youtube.com/playlist?list=PL34w81iXr8CtgkVTr-ij7Tthv5Y0Qe6jJ&si=idNl7vzYc7YTmENd
[2] Banco Central do Brasil (BCB). Pix em números. Disponível em: https://bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/pix-em-numeros-estatisticas
[3] ABECS – Balanço
do setor de meios eletrônicos de pagamento RESULTADOS 1T26 – Associação das
empresas do setor de meios eletrônicos de pagamento. Disponível em: https://abecs.org.br/storage/sector_balances/25/01KRBRHK0XNVRHQQ8Y2A6X07F4.pdf
[4] FEBRABAN - Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025. Disponível em: https://cmsarquivos.febraban.org.br/Arquivos/documentos/PDF/Pesquisa%20Febraban%20de%20Tecnologia%20Banca%CC%81ria%202025%20-%20Vol_01%20-%205.pdf
[5] PESSANHA, Roberto Moraes. A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e
mobilidade no capitalismo contemporâneo. Consequência: Rio de Janeiro,
2019.
[6] LANGLEY, Paul. Assets
and assetization in the financialized capitalismo. Review of International
Political Economy. Online, 2020. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/09692290.2020.1830828
[7] HARVEY, David. A
loucura da razão econômica. Boitempo: São Paulo. 2018.
[8] PESSANHA, Roberto Moraes. Artigo no Blog Roberto Moraes
e Portal 247 em 7 de maio de 2026. Dataficação:
questão-chave da soberania cibernética e superação da dependência digital. Disponível
em: https://www.robertomoraes.com.br/2026/05/dataficacao-questao-chave-da-soberania.html
segunda-feira, maio 11, 2026
A empatia como mercadoria escassa: habilidades sociais e as contradições do trabalho com mais IA
quinta-feira, maio 07, 2026
Dataficação: questão-chave da soberania cibernética e superação da dependência digital
Entender o fenômeno da dataficação é o primeiro passo para se compreender e almejar um avanço na formulação de políticas que tenha como objetivo a soberania cibernética, a superação da dependência e do colonialismo digital, considerando tudo aquilo que atualmente se desenrola de forma acelerada em relação à internet, ao uso de dados, algoritmos e plataformização, em diferentes partes do mundo.
A dataficação se situa num degrau acima da digitalização como etapa contemporânea da reestruturação produtiva. A transformação digital (dataficação) é um dos vértices do tripé do capitalismo contemporâneo que tem nas outras duas bases: a dominância e a hegemonia financeira (assetização e rentismo); e no outro vértice: a lógica da racionalidade neoliberal.
É importante destacar que o desenvolvimento da dataficação tem distinções no tempo, no espaço e nas condições socioeconômicas e políticas em que são implantadas e desenvolvidas, sendo desigual, mesmo que combinada, sobre o que vem sendo instituído mundo afora. De forma em especial os processos desenvolvidos nos EUA e na China.
A dataficação é a grande base das
grandes transformações que estamos assistindo na atualidade. Compreender o
papel e a importância dos dados no contexto da transformação digital e do
processo de plataformização no presente não é simples para a maioria das
pessoas. É algo de domínio ainda restrito a alguns especialistas e
pesquisadores, porque a lógica dos dados e da dataficação é toda imaterial,
embora o discurso e a ilusão da virtualidade no mundo digital já tenham sido
vencidos, porque hoje se sabe, amplamente, que os dados para existirem
prescindem de enorme e colossal infraestrutura digital.
Assim, os dados não são visíveis,
são abstratos e imateriais, embora demandem potentes infraestruturas maquínicas
digitais para que possam ser capturados, processados, estruturados e
correlacionados. Isso se dá a partir de fluxos que ligam diferentes infraestruturas
fixas digitais, de vários territórios e diferentes continentes, onde são armazenados
e alcançados, em movimentos frenéticos, permanentes e cumulativos.
A dataficação é um fenômeno que
usa o digital para criar novos dispositivos e novos mercados (marketfation, CALLON, 2008) [1] com a
conversão do máximo de atividades humanas, naturais e maquínicas em dados
(AMADEU, 2025, p.30) [2]. Assim, a digitalização se tornou a última fronteira
da globalização neoliberal financeirizada (MOROZOV, 2013) [3]. De forma similar,
também é possível afirmar que a dataficação se tornou a base da economia
digital e uma nova fronteira de acumulação no capitalismo contemporâneo.
A dataficação é ainda, um
fenômeno contínuo, pervasivo (se espalha) e que busca extrair dados de tudo:
pessoas (comportamentos, relações e movimentos); natureza; das coisas e ainda
dos dispositivos e das máquinas. Ou seja, se trata de um processo que busca transformar
fenômenos do mundo real em dados quantificáveis e digitais para assim gerar
valor ou conhecimento, incluindo a transformação de experiências antes
intangíveis, como amizades, emoções, preferências, movimentos físicos etc. que assim
passam a ser representadas numericamente e tratadas como dados (MAYER-Schonberger,
V. e CUKIER, K., 2013). [4]
Similaridades e distinções entre dados e petróleo
Ao contrário do que muito se diz,
os dados não existem puros na natureza como o petróleo com o qual é comparado
quase à exaustão. Isso só é verdade quando se trata do acúmulo de riquezas. Porém,
tanto o petróleo in-natura quanto o
dado solto e isolado não têm serventia. Os dados precisam dos algoritmos para
serem extraídos e correlacionados. De forma similar, o petróleo precisa das
plataformas e bases operacionais para extração e posterior beneficiamento com separação
da água, areia e outras impurezas.
Já que são tão comparados, embora
de forma errônea na maioria das vezes, penso que vale avançar nessa análise
comparativa dessas duas coisas: dados e petróleo. Ambas se transformam em commodities ou produtos comuns para
serem negociados após beneficiamento ou processamento. Lembrando que commodity
é qualquer produto natural ou básico que é praticamente igual independente de
quem produziu.
O petróleo precisa ser refinado
para se transformar em cerca de outras das três mil mercadorias possíveis. Já os
dados se estiverem isolados não têm valor. Sua valorização acontece quando eles
passam a ser correlacionados. Por exemplo: vendas de um tipo de produto ou
serviço, para um tipo de público, num determinado horário, em negócio
presencial e/ou online, região, etc. Dados sobre saúde, exames, por idade,
sexo, relação com doenças pré-existentes, numa região etc. Relações pessoais e/ou
institucionais nas mídias sociais, formas de interação e outros tipos de
comunicação, preferências e frequência de curtidas e comentários, sobre quais
assuntos, postagens e imagens etc.
Todos os sensores e dispositivos
digitais produzem dados cumulativamente. Os conhecidos smartwachtes convertem
batimentos cardíacos e o sono em séries e conjunto de dados. Os aplicativos de
transporte (mobilidade) registram os trajetos, origem, destino, tempo de
percurso, movimentos dos motoristas etc. Os aplicativos de bancos traduzem
nossos comportamentos financeiros em pontuações e scores que depois servirão
para análises de riscos. Dados como pagamentos de contas de água, luz,
telefone, estabilidade de número de celular, padrão de consumo online,
localização geográfica, relacionamentos com contatos que já deram calotes etc.
tudo isso acaba servindo para diferenciar bons e maus pagadores com atribuição
de pesos e uma pontuação final (credit
scoring) que, em síntese, é usada como análise de risco online, servindo
como uma espécie de “motor de decisão” nas instituições financeiras.
Porém, há uma grande e
fundamental diferença entre eles: o petróleo depois de processado, só pode ser
utilizado uma única vez como mercadoria, após seu beneficiamento e refino (como
no caso dos combustíveis ou outros). Enquanto isso, os dados extraídos,
processados e estruturados, sob a forma de conjunto de dados (datasets) podem ser utilizados inúmeras
vezes, ou indefinidamente, de forma contínua e para diferentes funcionalidades,
o que torna sua acumulação uma riqueza com muito maior potencial de valorização
que o petróleo.
A utilização do conjunto de dados
capturados dos comportamentos dos usuários tende a se multiplicar na medida em
que o seu uso gera atração de mais usuários num círculo virtuoso de valorização
e acumulação numa espécie de reprodução ampliada.
Outra observação importante é que
os dados, mesmo que relacionados, não são iguais entre si e possuem valores
diferentes conforme a serventia. Há dados simples de pouco valor, mas há outros
sobre comportamentos e obtidos a partir das relações nas mídias sociais que são
muito usados em atração de interesse e mercado para o e-commerce ou para a publicidade
no geral.
O petróleo, embora também não
seja igual entre todos os extraídos, não é tão diverso quanto os dados. Há o
petróleo mais denso, parafinado e o mais fino e mais fácil de ser refinado por
isso tem maior valor, porém, após beneficiamento, ambos produzem as mesmas
mercadorias para uso como os combustíveis e outros que possuirão valores
idênticos no mercado. Já os mesmos conjuntos de dados podem ser usados para
diferentes finalidades que agregarão variados e múltiplos e cumulativos valores.
Datasets são conjuntos de dados com valor e usos permanentes
Datasets são conjuntos de dados
organizados e estruturados. Alguns conjuntos de dados podem chegar a valores de
mercado muito maiores que outros mais simples. É o caso do conjunto de dados utilizados
para treinamento profundo (deep learning)
de máquinas, destinados à Inteligência Artificial Generativa (IAG) ou Super IA.
Esses conjuntos de dados precisam ter alguns predicados como volume, escala,
continuidade e facilidades que possam ajudar a IA a compreender os padrões
generalizáveis em termos probabilísticos.
Assim, esses conjuntos de dados permitem
que os modelos em que são usados possam tomar decisões e avançar em ações com
diferentes graus de autonomia, conforme a programação. Por exemplo: os dados e
tokens retirados desse artigo (texto) podem servir a este e outros propósitos,
várias vezes, para treinamento de diferentes modelos de linguagem.
Nessa lógica de mercado, os pacotes
de dados, já em grande escala, se transformam em commodities, em ativo (asset)
e em capital. E, dessa forma, também vão sendo sempre e continuamente ampliados,
gerando seguidos ciclos de reprodução do capital (digital), levando a novos
produtos e mercados e ao gigantismo (oligopolização) das grandes corporações de
tecnologia, as Big Techs.
A diferença na lógica e na formulação da política de dados dos EUA e da
China
Atualmente, oito das dez maiores
corporações com capital aberto em bolsas no mundo, são do setor tecnologia. Em
27 de abril de 2026, a soma no valor de mercado das dez maiores Big Techs – maioria
americana – equivalia a US$ 27,2 trilhões. Entre elas as chamadas “Magnificent Seven” (Sete Magníficas):
NVidia; Google; Apple; Microsoft; Amazon; TSMC; Broadcom e se tornaram os
maiores na história da humanidade. [5]
Nos EUA a dominação
tecnológica-digital sempre foi diretamente imbricada com a hegemonia financeira
do capital de risco (venture) e mercado de capitais, em que os grandes fundos e
investidores têm a maior parte do controle acionário das Big Techs que dirigem
as suas ações de desenvolvimento tecnológico e de mercado.
É fácil identificar que quase toda
a política de dados dos EUA é, fundamentalmente, baseada e centralizada nas Big
Techs que administram negócios e serviços espalhados em vários países do mundo em
especial, mas não exclusivamente, no Ocidente. Assim, as Big Techs extraem dados
gratuitamente e em colossais volumes e os organizam, estruturam, armazenam e concentram
sob a forma de diferentes pacotes de dados (datasets)
que têm garantido boa parte de seus extraordinários, crescentes e bilionários lucros.
O modelo que vem sendo desenvolvido
pelos chineses é distinto, embora por lá, também tenham surgido gigantes
corporações de tecnologia, com estruturas de negócios similares (quase espelho)
aos das companhias estadunidenses, porém a maioria possui capital fechado e
algumas misturam participações acionárias entre companhias estatais e privadas do
próprio país. As gigantes corporações de tecnologia chinesas são conhecidas
como BATH (Baidu, Alibaba, Tencent e Huawei) além da Byte Dance e JD.com (essa mais
da área de logística como braço do e-commerce).
Na China, além dessas gigantes da
tecnologia, outras companhias e startups, estão por trás do "Plano de
Desenvolvimento de Inteligência Artificial de Nova Geração", lançado em
2017, que tem o papel estratégico de transformar o país no principal centro de
inovação em IA do mundo, em concorrência direta com os EUA.
Além disso, a direção e o
planejamento chineses, embora também misture o setor estatal e o setor privado
nos negócios, a regulação, financiamento e de seus grandes objetivos, direções,
metas e ações, são desenvolvidas pelos planos aprovados pela Assembleia
Nacional Popular (ANP), o parlamento da China. São planos e objetivos maiores e
de longo prazo, o atual com metas até 2029 que ambiciona transformar a China em
um “país socialista moderno até 2049” e que se desdobram em planos de prazos menores,
os chamados planos quinquenais.
A inovação chinesa das bolsas de dados (Datas Exchanges)
Dentro do seu planejamento, a
China tem trabalhado a dataficação de uma forma distinta do Ocidente. A China
tem de forma especial observado e agido na direção sobre como o Estado pode
aproveitar os dados como motor do desenvolvimento econômico. Entendendo a
profundidade e extensão de sua importância e repercussão, a China passou a reconhecer
o dado como fator de produção, assim como o trabalho, o capital e a terra.
Nessa direção a China criou uma
inovação na área da economia digital que são as bolsas de dados (data exchanges) em que os mesmos são valorizados
e negociados como ativos financeiros. Ao que que se sabe é uma iniciativa ainda
única no mundo, até hoje só existente na China. As bolsas de dados passaram a
estimular, regular, organizar e fiscalizar o negócio de conjunto de dados de
forma similar às conhecidas bolsas de valores tradicionais.
“Essas experiências buscam
integrar mercados de dados locais fragmentados em um mercado nacional
unificado, abordando a persistente fragmentação de dados na China entre
jurisdições e setores, também conhecida como o problema das “ilhas de
dados”. Se trata de uma abordagem alternativa ao que faz os EUA que deixa tudo
nas mãos das Big Techs e também ao que faz a União Europeia, essa mais baseada
numa governança dos dados com restrição aos mercados, enquanto a China partiu
para ferramentas que tentam construir e dinamizar o mercado dos dados, partindo da premissa que se tratam de mais um fator de produção. [6]
Atualmente, já existem na China cerca de 50 bolsas ou plataformas de negociação de dados em funcionamento, em mais de 20 diferentes províncias. Em 2024, duas destas bolsas de dados, a Shangai Data Exchange e a Guizhou-Guiyang Big Data Exchange eram as que comercializavam os maiores volumes de conjunto de dados da China, apurando algo acima de 5 bilhões de yuans (aproximadamente 730 milhões de dólares). No final de 2024, a China somava mais de 32 mil conjuntos de dados comercializados em plataformas espalhadas pelas províncias. [6]
As bolsas de dados chinesas são controladas
por organismos estatais que regulam o fluxo interno dos conjuntos de dados
comercializados. Há também organismo estatal para regular e fiscalizar os
negócios transfronteiriços de dados seguros. Um deles é o Lingand International
Data Port de Xangai (vinculado à China Unicom, operadora estatal de
telecomunicações) que trabalha com o objetivo estratégico de tornar a região de
Xangai como uma “capital digital internacional e motor de inovação
tecnológica”.
A China também adota outro
instrumento conhecido como “Zona Franca de Dados” ou Zonas de Livre Comércio
(FTZs) que funciona em Xangai e Hainan, onde funciona uma espécie de porto de
livre comércio de outras mercadorias. Outra província com bolsa de dados bem
desenvolvida é Shenzhen (província de Guangdong ou Cantão).
As grandes companhias chinesas
privadas de tecnologia privadas tendem a proteger e ganhar com os seus próprios
dados, num movimento similar ao que fazem as big techs americanas e muitas
vezes preferem negociar seus conjuntos de dados fora das bolsas. Os compradores
dos pacotes de dados nas bolsas são empresas de outros setores de médio porte e
também, em especial, cada vez mais, as startups de IA.
As gigantes corporações de tecnologia
chinesa também concentram seus dados coletados, estruturados e armazenados, mas
deixam espaço para os conjuntos de dados que são comercializados nas dezenas de
bolsas de dados, garantindo a expansão da inovação para além das grandes
corporações digitais. Mais que isso, esses conjuntos de dados têm contribuído
para alimentar a economia real na China e não a hegemonia financeira que nos
EUA controla, em boa parte, as grandes corporações de tecnologia.
Porém, informações oriundas da
China indicam que, também por lá, os setores que mais negociam pacotes de dados
como clientes das bolsas (datas exchanges) são pela ordem: finanças e crédito
(bancos e fintechs respondem por mais de 40% dos volumes transacionados nas
bolsas de dados); seguros; telecomunicações, tecnologia e internet; saúde;
manufatura e indústria 4.0 e dados para treinamento de IA.
As autoridades regulatórias de dados na China
À medida que os dados ganhavam
importância na sociedade e na economia chinesas, novos organismos de planejamento,
controle e regulação estatais foram sendo desenhados e implantados. Um dos
objetivos na implantação destas autoridades estatais e dos instrumentos por
elas arquitetadas, incluindo as bolsas de dados, era o de criar um ambiente de
políticas que dessem dinâmica a essa classe de ativo, para além de testar e
fiscalizar as ofertas e listas de conjuntos de dados colocados para
comercialização interna e externa, garantindo, entre outras coisas, que os
mesmos sempre fosse “anonimizados e desindentificados”.
A principal autoridade regulatória de dados, internet e IA da China é a CAC (Cyberspace Administratin of China – Administração do Ciberespaço da China). Entre vários outros assuntos, a CAC cuida da aplicação da lei de Proteção de Informações Pessoais (PIPL) e é também responsável pelo registro obrigatório de algoritmos e pela aprovação prévia de serviços de IA ao público. Porém, em 2023, a China criou a NDA (National Data Administration – Administração Nacional de Dados, como uma autoridade central responsável por coordenar a formulação de políticas econômicas relacionadas aos dados, promovendo uma divisão institucional do trabalho no regime de governança de dados chinês, mas centralizou mais funções de desenvolvimento da NDA, deixando a supervisão da segurança e privacidade dos dados com a CAC, junto com outras agências responsáveis pela aplicação das estruturas regulatórias preexistentes.
Outro órgão importante na
política de dados da China é o MIIT (Ministério da Indústria e Tecnologia da
Informação) que regula o setor que opera as telecomunicações, infraestrutura
digital e a indústria. Já a NDRC, Comissão Nacional de Desenvolvimento e
Reforma tem a função de planejamento estratégico das infraestruturas com papel
crescente no desenvolvimento da IA. Outros órgãos e ministérios também atuam
nessa área como: Ciência e Tecnologia; Segurança Pública; Comitê Nacional de
Cibersegurança e Regulação de Mercado.
Entre outras estratégias chinesas na área de dados, o governo chinês também estabeleceu sete províncias (incluindo Pequim, Xangai, Shenzen, Guiyang e Guangdong) como zonas piloto de desenvolvimento e inovação da economia digital com o objetivo de explorar soluções técnicas e políticas voltadas aos gargalos do mercado de dados. O desafio perseguido seria o de garantir a valoração dos dados, o direito de propriedade e a construção de confiança entre fornecedores e compradores dos conjuntos de dados como fator de inovação e produção material.
China propôs criação da Organização Mundial de Dados (OMD)
As ações e políticas na área de
gestão dos dados tem sido feita basicamente pelos governos nacionais e/ou
corporações. Porém, no final de março de 2026, a China, através do seu
presidente Xi Jiping avançou nessa área, com um movimento ousado, multilateral,
ao propor a constituição de um organismo (uma plataforma) internacional
dedicada a criar normas globais de governança de dados. A iniciativa ganhou a
denominação de Organização Mundial de Dados (OMD ou WDO em inglês). A proposta
é que a entidade como organismo multilateral tenha foco na cooperação
internacional e como principal função a liberação do valor dos dados com o objetivo
de reduzir a divisão digital desigual em termos de compartilhamento.
O objetivo mais geral da WDO
seria de impulsionar a economia digital com foco na segurança e privacidade em
todo o mundo. A China estimou que a OMD possa ainda preencher uma lacuna
fundamental na atual disputa pelo controle dos dados que tem sido o eixo central
da disputa geopolítica tecnológica global. A meta seria ainda de tornar a WDO
uma plataforma internacional de referência com reconhecimento global na
promoção da governança de dados, inovação tecnológica e inclusão digital em
escala mundial. [7] [8]
Há que se observar como esta
interessante proposta avançará diante dos desgastes que se observa na ONU e também
nas demais organizações mundiais setoriais já existentes (OMS, OMC e OIT), diante
de tantos desentendimentos entre os dois maiores líderes mundiais em tecnologia
digital, os EUA e a China. E também diante dos desafios das tensas relações
internacionais atuais que pendem entre nova guerra fria com a volta da
bipolaridade ou do início de nova ordem global baseada na multipolaridade.
Considerações finais sobre a urgência de uma política de dados para o
Brasil
O objetivo desse texto foi o de
destacar o valor dos dados e como vem se desenvolvendo os processos de
dataficação e sua relação com a digitalização, plataformização, o rentismo e
novas formas de acumulação nas sociedades contemporâneas. Além disso, foram
também apresentados alguns elementos sobre as ações que estão sendo adotadas
pelas nações que pularam na frente nos processos de dataficação, extração e
acumulação dessa colossal riqueza.
Essa breve exposição teve ainda o
objetivo de trazer mais argumentos visando deixar ainda mais claro como é
indispensável e urgente que o Brasil organize e implante uma política nacional
de dados, indo muito para além da desejada privacidade, como já tinha abordado
e defendido em artigo anterior, no qual chamei a atenção para o fator econômico
embutido na questão, ao lembrar que o Brasil é a 5ª maior economia digital do
mundo. [9]
Também tenho insistido que não se deve tratar dessas questões de forma pontual ou isolada. É necessário olhar, analisar e propor políticas integradas para toda a extensa e complexa cadeia produtiva que vai desde as terras raras/minerais críticos e estratégicos (MCE), passando pela questão energética (incluindo a transição com os renováveis) e hídrica, até o e-commerce com negócios de produtos e serviços, incluindo aplicativos de música, streaming para artes e cultura. Porém, mais especialmente a extração, proteção, armazenamento e controle monopolístico com valorização dos zilhões (múltiplos bilhões) de dados que nós brasileiros produzimos a cada ano.
Alguns estudiosos têm ainda afirmado
que mais que dados genéricos, o potencial dos dados gerados no Brasil é ainda bem
maior e isso acontece por conta das características da língua portuguesa, usada
num país de mais de 150 milhões de usuários de internet. Segundo Horta (2026), nossa
linguagem possui enorme diversidade lexical, sintática e um tecido semântico com
características partilhadas (tokens), o que confere maior valor aos dados, mais
que em outros casos, diante das operações de treinamento de modelos, para que os mesmos aprendam padrões que sejam generalizáveis, pois possuem maiores capacidades
em termos de probabilidades estatísticas, indispensáveis quando se está falando
de aprendizagem profunda de máquina, para uso na IA generativa (Gen AI). [10]
Considerando tudo que já sabemos
sobre os processos imbricados envolvidos na economia digital - que gostam de
chamar, equivocadamente, de ecossistema, só porque são integrados -, não é
admissível que deixemos prosseguir os meios e as condições que permitem o livre
e gratuito fluxo dos dados de nossa população brasileira, à mercê da captura e
uso por parte dos oligopólios das Big Techs. Passado o tempo e o conhecimento
que agora dispomos sobre a valoração dessa colossal riqueza dos nossos dados,
paulatinamente, esse vem se tornando um dos maiores crimes lesa pátria e contra
a soberania da história de nosso país.
Nessa linha, entende-se que não cabe falar isoladamente em política para investimentos em datacenters e infraestruturas digitais sem considerar a dataficação e a implantação de uma clara, urgente e política de dados no Brasil. É insuficiente tratar do tema do tema delicado da soberania e segurança nacional sem que o país implante medidas que impeçam a transferência gratuita dos dados das pessoas, empresas, governo e da sociedade brasileira para as grandes corporações concentradas nos EUA, que depois se utilizam deles para nos cobrar valores exorbitantes, pela prestação de serviços, nos quais os dados são os insumos básicos.
Em 2024, as Big Techs tiveram no Brasil, um total de R$ 144 bilhões em receitas e remeteram R$ 80,3 bilhões de lucros (55% do faturamento) para as suas sedes nos EUA, um volume 28 vezes maior que há uma década antes. [9] Estas são ocorrências da realidade fática que retratam a dependência e a submissão de um colonialismo digital que não é aceitável que siga indefinidamente. Dados são matérias-primas que não podem estar a serviços de novas e contemporâneas arquiteturas de colonização, agora, também, de natureza digital.
Os caminhos utilizados pela China,
EUA e outros países são exemplos, mas cada país tem condições e situações
particulares na inter-relação Estado-instituições-mercado e sociedade. Se
apropriando da ideia dos objetivos das discussões climáticas, é possível pensar
um “mapa de nosso caminho digital” em que a dataficação é questão básica a ser
planejada com urgência.
Com bolsas ou sem bolsas de dados, mas com uma política clara, forte e propositiva de dados com definição de autoridades regulatórias, mas também com objetivos de planejamento, organização e financiamento que sejam céleres. Considerando o sistema que vivemos, não se deve deixar de incluir formas de participação e de financiamento que envolva o setor privado com atuação nas diversas etapas da cadeia produtiva da economia digital.
O Brasil não começará do zero, há várias instituições, companhias e
pessoas qualificadas para essa tarefa, mas a espinha dorsal (backbone) da política de dados precisa
ser urgentemente traçada e definida. No caso brasileiro, o MCT, Finep e BNDES
poderiam, por exemplo, serem o embrião para estruturar essa espinha dorsal e
arrastar o corpo com outros agentes para o “mapa do caminho da dataficação” no
país. Mãos à obra!
PS.: Breves atualizações e correções feitas às 15:46.
Referências:
[2] AMADEU, Sérgio. 2025. As Big Techs e a Guerra Total: O
complexo militar-dataficado. São Paulo: Hedra, 2025.
[3] Afirmação do pesquisador
bielorrusso, Evgeny MOROZOV, feita no Brasil, em palestra realizada no dia 28
de agosto de 2023, no teatro da FECAP (São Paulo) que teve como tema: "Desafiando o poder das Big Techs: soberania
tecnológica e futuros digitais alternativos", numa iniciativa do
NIC.br e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Na oportunidade,
Morozov também falou sobre a “importância da soberania tecnológica em um mundo
cada vez mais digital, pré-requisito para qualquer soberania política e
econômica significativas”.
[4] MAYER-SCHONBERGER, V. e CUKIER,
K. Big Data: Como extrair volume,
variedade, velocidade e valor da avalanche de informação cotidiana. Rio de
Janeiro: Elsevier Editora, 2013.
[5] Valor de mercado das Big
Techs extraídos do Infinite Market Cap
em 27 de abril de 2026.
[6] GUO, Ran. Assetizing,
Trading, Franchising: China's Strategy for Building a National Data Economy.
Asia Society Policy
Institute em 13 de fevereiro de 2026. Disponível em https://asiasociety.org/policy-institute/assetizing-trading-franchising-chinas-strategy-building-national-data-economy
[7] GÖRGEN, James. O
papel da Organização Mundial de Dados no tabuleiro da soberania digital - O
lançamento da WDO reposiciona os cálculos estratégicos de cada um dos
principais atores da governança digital. Revista Exame em 31 de março de 2026.
Disponível em: https://exame.com/colunistas/opiniao/o-papel-da-organizacao-mundial-de-dados-no-tabuleiro-da-soberania-digital/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento
[8] FALCI, Bruno. Organização
Mundial de Dados para impulsionar inclusão digital no Sul Global nasce na China:
Pequim se torna a sede da entidade que reúne governos, instituições e empresas
de mais de 40 países. Brasil de Fato em 2 de abril de 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/04/02/nasce-na-china-a-organizacao-mundial-de-dados-para-impulsionar-inclusao-digital-no-sul-global/
[9] Pessanha, Roberto M. Artigo publicado no Blog Roberto Moraes e Portal 247 em 16 de abril de 2026. Brasil como 5ª maior economia digital do mundo tem urgência por uma estratégica política de dados! Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2026/04/brasil-como-5-maior-economia-digital-do.html
[10] HORTA, Fernando. Publicado no blog A Terra é redonda em 22 de abril de 2026. Brasil – a joia da coroa digital. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/brasil-a-joia-da-coroa-digital/
quinta-feira, abril 16, 2026
O gigantismo imparável das Big Techs!
segunda-feira, abril 13, 2026
Brasil como 5ª maior economia digital do mundo tem urgência por uma estratégica política de dados!
A economia digital deve ser sempre analisada na extensão de toda a sua cadeia produtiva que vai desde as terras raras/minerais estratégicos críticos (MEC), a questão energética (incluindo a transição com os renováveis) ao e-commerce com negócios de produtos e serviços, incluindo até os aplicativos de música, streaming para artes, cultura, etc.
A dataficação é o fenômeno que se situa num degrau acima da digitalização ou da chamada transformação digital que exige e deve nos despertar para uma política pública especial para os dados que vai muito para além da necessária privacidade.
Ao contrário do que muitas vezes se diz os dados não existem puros na natureza ou nos sistemas. Os dados precisam ser correlacionados, organizados e estruturados para terem valor e, assim, se transformarem em mercadoria e em commodities para serem negociados, inclusive em bolsas de valores específicas de dados, como a criada em 2016 em Pequim e que começou a fazer negócios em 2021. Assim, a China passou a considerar os pacote de dados como fator de produção, junto com terra, capital e trabalho que passa a alimentar novas forças produtivas.Dataficação como etapa contemporânea da reestruração produtiva se desenvolve de maneira distinta nos EUA e na China
É preciso reconhecer que estamos lidando com um fenômeno que é parte de uma nova etapa da reestruturação produtiva (dataficação e plataformismo) que possui várias dimensões de análise (multidimensional) e com características transescalares e transnacionais e, portanto, que merece abordagens da geoeconomia e da geopolítica.
Observando nessa dimensão da geoeconomia e da geopolítica ficam
claros dois movimentos bem distintos em termos direção e planejamento. No Ocidente
os grandes investimentos no desenvolvimento da tecnologia digital e dos dados têm
como motor a direção e o controle do mercado de capitais (venture capital). Grosso
modo, pode-se dizer que o Big Money dirige e controla as Big Techs. As gestoras
dos grandes fundos financeiros americanos (BlackRock, Vanguard, Fidelity, JP
Morgan etc.) têm entre 25% e 30% das ações das maiores Big Techs americanas, o
que confirma o enorme imbricamento, desde o DNA, entre o Big Money e as Big
Techs.
Já no Leste, no Oriente, na Ásia, em especial na China, o
grande motor é o Estado, seu plano de longo prazo (2050) que se desdobra nos
planos quinquenais que vão definindo as principais direções e as metas em
prazos mais curtos. O Estado (nacional e provinciais) define as metas, financia
boa parte dos projetos e ações, mas dá espaço e incentiva que os empreendimentos
privados assumam setores e os negócios em toda a extensa e densa cadeia
produtiva digital, mas garantindo o norte dos grandes objetivos e metas da
nação.
O gigantismo do monopólio das Big Techs
No Ocidente, as gigantes corporações de tecnologia, chamadas
desde lá atrás de Big Techs, avançam em oligopólios cada vez maiores estruturados
por setor e funções dentro da economia digital como um todo, mas têm como direção
e objetivo maior, a rentabilidade das Big Techs e dos fundos, praticamente
todas as líderes com sedes nos EUA, de onde controlam a extração de dados e a
remessa de lucros de todo o mundo, repudiando e lutando com sua força e seu
poder contra toda e qualquer regulação dos estados nacionais.
Essa aliança entre o Big Money e as Big Techs gerou um
gigantismo que expressa e redunda no atual e maior monopólio de toda a história
da humanidade, muito superior ao que foram as Big Oil (Petroleiras), Big Stell
(siderúrgicas), Big Car (montadoras de automóveis) e Big Pharms
(farmacêuticas).
O fato de ser um fenômeno (digitalização/dataficação) transversal
(pervasivo, ou que se espalha) e que atua de forma contínua e cumulativa,
contribui para que dataficação atue sobre todos os demais setores da economia (assim
como as finanças e o crédito), com o qual nasceu e cresce de forma imbricada e
direta, explicando esse monopólio gigante que hoje está - mais que nunca - abraçado
e enlaçado com o Estado dos EUA, incluindo nos setores de defesa e da guerra.
Para se ter uma ideia do tamanho desse gigantismo é oportuno
investigar os dados atuais das corporações de maior valor de mercado do mundo. Oito das dez maiores corporações do mundo que possuem capital aberto em bolsa são da área de tecnologia. Hoje, dia 13 abril de
2026, mesmo com a retração econômica mundial derivada das guerras (OTAN-EUA-Ucrânia x
Rússia e EUA-Israel x Irã), as 10+ Big Techs somam US$ 25 trilhões (para ser
exato US$ 24.982 bilhões), liderada pela NVidia que sozinha vale US$ 4,5
trilhões.
Enquanto isso, as 10+ petroleiras do mundo (com capital em
bolsa) somam US$ 4,2 trilhões (para ser exato US$ 4.176 bilhões), liderada pela
saudita Saudi Aramco que hoje está valendo US$ 1,7 trilhão. Ou seja, só a NVidia
vale mais que a soma das dez maiores petroleiras somadas. As 10+ Big Techs valem 6
vezes mais que as 10+ Big Oil. Observem ainda que que isso se dá no auge da
valorização dessas companhias, considerando o atual aumento do valor do barril
de petróleo acima de US$ 100.
As Big Techs pagam muito mais impostos nos EUA do que no
resto do mundo incluindo o Brasil. Ou seja, as Big Techs aceitam pagar maiores
impostos nos EUA e negam qualquer coisa próxima a equivalência, em qualquer outra
parte do mundo. Hoje, as Big Techs
têm no governo estadudinense uma espécie de barreira de proteção que pressiona com tarifaços e outros mecanismos, para que os países não façam regulações (alegam liberdade) e também atuam para limitar as cobranças de impostos
nesses outros países onde prestam serviços e extraem “zilhões” (mais que
trilhões) de dados de forma completamente gratuita e quase sem nenhum controle.
As receitas e a remessa de lucros que as Big Techs realizam no Brasil
No Brasil as Big Techs tiveram R$ 144 bilhões em receitas no
ano de 2024 e remeteram R$ 80,3 bilhões de lucros para as suas sedes nos EUA.
Ou seja, um volume de remessa de lucros equivalentes a 55% do seu faturamento
no país. Em 2014, o volume de remessa de lucros das Big Techs desde o Brasil
tinha sido de apenas R$ 2,8 bilhões. Ou seja, estamos falando de aumento de 28
vezes no volume de remessas de lucros realizadas pelas Big Techs em apenas uma
década no Brasil.
Tudo isso é espantoso e, mesmo que sabido, aparece para a
maioria dos brasileiros de forma extremamente fragmentada e assim vai passando
de forma despercebida. Há muitas ações a serem implementadas no país. Sabe-se
que a correlação de forças na geopolítica é desfavorável diante de todo tipo de
ameaças e das ofertas entreguistas. Porém, é preciso ter clareza desse quadro,
para se ter noção da direção por onde é possível avançar e aquilo que não cabe
ser negociado, em toda a extensa e densa cadeia produtiva digital do país. O
Brasil é disparado a maior economia digital da AL e a quinta maior do mundo.
A soberania digital vai muito para além da implantação da
infraestrutura digital com datacenters e conectividade no Brasil. É urgente também uma
política clara dos negócios de dados, entendendo seu papel estratégico nessa
fase revolucionária da reestruturação produtiva e da digitalização na vida em sociedade.







