terça-feira, fevereiro 10, 2026

"Como a tecnologia digital (não só as mídias sociais) manipula as eleições", por Reynaldo Aragon e Edem Cardim

Manipulação digital a partir da classificação dos territórios eleitorais. Eleitores são agrupados por espaços emocionais, padrões de comportamento, vulnerabilidades psicológicas e tendências de engajamento nas mídias sociodigitais e, agora, também nas plataformas (chatbots) de IA. 

Mapas ideológicos são desenhados por algoritmos que segmentam os perfis em distritos (espaços) cognitivos. Assim, se tornam presas fáceis do processo de manipulação. "Não é a realidade que molda o comportamento político, é o filtro emocional criado pelos algoritmos e ajustados por atores que pagam para direcionar, ocultar ou amplificar mensagens específicas". 

Exatamente aí se situa a manipulação eleitoral utilizando-se da classificação das pessoas por territórios mentais e não físicos. Uma espécie de cartografia algorítmica.

Além de classificar e identificar quem está de um lado ou outro do espectro político, os algoritmos das midias digitais tentam direcionar a percepção política, mediante processos abstratos e opacos de manipulação que passam despercebidos pela grande maioria dos usuários das redes, vistas como, aparentemente, inofensivas. 

Por isso e muito mais vale ler o artigo de Reynaldo Aragon e Edem Cardim, publicado originalmente no site Código Aberto e republicado aqui no Portal Outras Palavras. Segundos os autores, esse esquema é muito mais perigoso do que as chamadas fake news, que efetivamente se tratam de "campanhas coordenadas de desinformação". Vale conferir na íntegra!


Gerrymandering Digital: Como as Redes Manipulam Eleições no Brasil

Por Reynaldo Aragon e Eden Cardim

A Eleição Invisível

A eleição brasileira de 2026 já começou — e ela não está acontecendo no território físico, mas no território cognitivo. Enquanto o debate público olha para pesquisas, candidatos e alianças partidárias, a disputa real se desenrola em outra camada da realidade: a arquitetura invisível das plataformas digitais, onde algoritmos e capital privado constroem aquilo que chamo de gerrymandering digital. Trata-se de uma técnica sofisticada, capaz de reorganizar o eleitorado não por regiões geográficas, como no gerrymandering clássico, mas por regiões emocionais, grupos de comportamento, padrões de vulnerabilidade psicológica e tendências de engajamento afetivo. Em vez de redesenhar distritos no mapa, as plataformas redesenham o mapa mental do país.

O funcionamento é simples e brutal. Cada pessoa, ao interagir nas redes, deixa um rastro contínuo de sinais: medos, crenças, preferências, horários de maior fragilidade, temas que provocam raiva, conteúdos que geram prazer imediato, assuntos que disparam indignação moral. Esses sinais são processados por algoritmos que segmentam milhões de indivíduos em distritos cognitivos, grupos invisíveis definidos não pela rua onde moram, mas pelo perfil emocional que apresentam. Assim, uma pessoa que engaja com vídeos de violência urbana, notícias policialescas e conteúdos religiosos tende a ser colocada em um distrito mental do medo. Esse distrito recebe, de maneira sistemática, um fluxo contínuo de mensagens sobre “caos”, “invasões”, “corrupção das instituições”, “guerra cultural” e “necessidade de força”. O objetivo não é informá-la — é manter seu estado emocional ativado para direcionar sua percepção política.

Da mesma forma, uma mulher evangélica que consome conteúdos sobre maternidade, família e fé é automaticamente inserida em um distrito de indignação moral. Ela passa a receber narrativas cuidadosamente calibradas sobre “ameaças à família”, “doutrinação”, “destruição de valores” e “ataques à fé”. Não importa se tais ameaças não existem no mundo real; elas existem no seu mundo algorítmico, construído sob medida. Em ambos os casos, não é a realidade que molda o comportamento político — é o filtro emocional criado pelo algoritmo, ajustado por atores que pagam para direcionar, amplificar ou ocultar mensagens específicas.

Essa engenharia comportamental não acontece de forma aberta. Não há aviso, lei, auditoria ou escolha consciente. As pessoas simplesmente acreditam que estão “vendo as notícias”, quando na verdade estão recebendo uma versão personalizada de realidade, criada para maximizar vulnerabilidades cognitivas e produzir determinados efeitos políticos. Isso, e não as fake news isoladas, é o verdadeiro mecanismo de manipulação contemporâneo: a reorganização industrial da atenção, do afeto e da percepção coletiva.

Por isso afirmo: a maior eleição do Brasil não se vence apenas nas urnas — vence-se dentro da mente das pessoas, dias, meses e anos antes do voto. A democracia formal continua existindo, mas a disputa por ela foi deslocada para a camada invisível das plataformas, onde dinheiro, dados e algoritmos decidem quem vê o quê, quem acredita no quê e, no limite, quem vota em quem. O gerrymandering digital transforma cada emoção em território político, cada feed em distrito eleitoral e cada sujeito em alvo de uma operação psicológica contínua.

É essa eleição invisível — profunda, sistêmica e silenciosa — que precisamos revelar antes que seja tarde para 2026.

Do Território Físico ao Território Cognitivo

O gerrymandering nasceu como uma manobra cartográfica. Durante décadas, seu poder residiu na caneta que redesenhava fronteiras eleitorais nos Estados Unidos: arrastava-se uma linha para concentrar opositores em poucos distritos ou para diluí-los em muitos. A manipulação era física, gráfica, geométrica. A distorção democrática acontecia no papel. Mas o mundo mudou. As democracias do século XXI não são mais mediadas pelo território, e sim pela informação. E, como toda forma de poder, a técnica se adaptou.

A revolução digital deslocou o eixo da política. Em vez de perguntar onde as pessoas moram, as plataformas perguntam quem elas são — ou melhor, quem elas se tornam diante de determinados estímulos. Não interessa mais o bairro, a rua ou a zona eleitoral. Interessa o tipo de conteúdo que provoca raiva, o tipo de notícia que gera ansiedade, o tipo de imagem que aciona culpa, fé, ressentimento ou pertencimento. Com isso, a lógica do gerrymandering deixou de operar no espaço físico e passou a operar no espaço cognitivo. O mapa agora é interno. O território é emocional.

Essa transição é profunda e tem raízes materiais claras. No capitalismo digital, não é o voto isolado que importa, mas a capacidade de modular comportamentos em escala e ao longo do tempo. Cada curtida, cada vídeo assistido até o fim, cada mensagem encaminhada, cada pausa diante de um conteúdo serve como dado para construir um retrato psicológico. Esse retrato, por sua vez, determina o grupo mental ao qual a pessoa será destinada. A troca é simples: sai o distrito geográfico, entra o distrito comportamental. Sai o mapa político, entra o mapa afetivo.

A grande mutação é que, ao contrário do território físico, o território cognitivo é maleável, reconstruído diariamente pela interação. O algoritmo não redesenha fronteiras uma vez por década, como nos mapas eleitorais tradicionais; ele redesenha fronteiras infinitas vezes por minuto. As “bordas” dos distritos cognitivos são frágeis, fluidas, autoajustáveis e quase sempre invisíveis para quem está dentro delas. Uma mesma pessoa pode existir simultaneamente em vários microterritórios mentais, cada um estruturado para determinado tipo de influência política. Não se trata mais de controlar a região onde alguém vota, mas de controlar as condições emocionais pelas quais essa pessoa toma decisões.

Essa mudança representa uma ruptura histórica. O gerrymandering clássico reorganizava o eleitorado para manipular resultados. O gerrymandering digital reorganiza o próprio sujeito. Não desloca apenas grupos; desloca percepções. Não altera apenas fronteiras; altera percepções de realidade. E isso, na lógica do materialismo histórico-dialético, significa que a disputa deixou de ser sobre território e passou a ser sobre consciência. A luta de classes atravessa agora a infraestrutura tecnológica que media a vida cotidiana, moldando a base cognitiva da política antes mesmo que o sujeito perceba que está sendo disputado.

Distritos Eleitorais Digitais

As plataformas transformam os sinais emitidos pelos público em clusters comportamentais. Cada cluster é um grupo de indivíduos que compartilha padrões semelhantes de reação emocional, consumo de conteúdo, vulnerabilidade cognitiva e disposição para engajamento político. E é aí que nasce o distrito eleitoral digital: um território invisível, formado não por ruas ou bairros, mas por estados mentais recorrentes. É exatamente nesses territórios que as narrativas políticas são distribuídas, calibradas e potencializadas para produzir efeitos específicos.

O que faz desses distritos uma arma tão poderosa é a capacidade de serem continuamente atualizados. Ao contrário dos distritos geográficos, que ficam congelados por anos, os distritos digitais se reorganizam em tempo real. Se uma pessoa passa a consumir vídeos alarmistas, seu cluster muda. Se ela interage com mensagens de violência urbana, seu distrito é reconfigurado. Se demonstra simpatia por conteúdos religiosos, imediatamente passa a receber narrativas morais e apelos identitários. Cada toque na tela, cada pausa em um vídeo, cada comentário ou compartilhamento funciona como uma espécie de voto cognitivo: um microgesto que reposiciona o indivíduo dentro do grande mapa emocional do país.

A precisão é tão cirúrgica que o algoritmo sabe antecipar comportamentos antes que o próprio sujeito tenha consciência deles. Ele não apenas observa padrões, mas prediz estados mentais futuros. E, a partir dessas previsões, entrega conteúdos capazes de reforçar, estimular ou manipular esses estados. Uma pessoa que tende a sentir medo à noite recebe conteúdos mais alarmistas depois das 23h. Uma pessoa que demonstra instabilidade afetiva recebe vídeos que reforçam indignação. Uma pessoa que reage a estímulos religiosos recebe mensagens políticas disfarçadas de pregação. Cada entrega é um cálculo, cada cálculo é uma aposta sobre como moldar o próximo passo emocional do indivíduo — e isso é o coração do distrito digital.

Essa engenharia é profundamente material. Não é uma abstração psicológica ou uma metáfora da comunicação. É um mecanismo concreto, estruturado em bancos de dados, modelos estatísticos e sistemas de recomendação que constituem, na prática, aparelhos privados de hegemonia. Não é preciso que um político ou um partido redesenhe mapa algum: as plataformas fazem isso sozinhas, como parte de seu modelo econômico, que depende da maximização de engajamento emocional para gerar lucro. Ao mesmo tempo, grupos políticos e econômicos apenas aproveitam essa infraestrutura e pagam para direcionar mensagens específicas para cada distrito mental construído pelo algoritmo.

Na prática, esses distritos não têm nome, mas têm função. Há o distrito do medo, o distrito da raiva, o distrito da fé, o distrito do ressentimento, o distrito da performance de classe média, o distrito do antipetismo moralizado, o distrito militarizado, o distrito conspiratório. Cada um recebe uma dieta informacional própria, ajustada para reforçar emoções que favorecem determinados posicionamentos políticos. Não se trata de persuadir racionalmente; trata-se de posicionar emocionalmente.

Esse é o ponto crucial: o distrito digital não organiza votos. Ele organiza afetos. E, ao organizar afetos, organiza percepções. E, ao organizar percepções, organiza escolhas políticas. A democracia continua existindo formalmente, mas sua base cognitiva está sendo redesenhada em tempo real por sistemas que não pertencem à sociedade brasileira e que podem ser acionados por interesses nacionais e estrangeiros sem qualquer tipo de controle público.

Assim, os distritos eleitorais digitais não são apenas uma evolução do gerrymandering. Eles são a forma superior da manipulação política contemporânea: uma tecnologia capaz de transformar emoções em território, comportamento em mapa e vulnerabilidade humana em ferramenta de disputa eleitoral. É nessa engrenagem que o Brasil está preso.

Como se manipula a Mente

A engrenagem do gerrymandering digital só funciona porque opera no ponto mais vulnerável e mais determinante da vida social: a mente humana. Ao contrário da propaganda política tradicional, que disputa argumentos, slogans e narrativas, o sistema atual disputa estados emocionais, vieses cognitivos e padrões de reação que já existem nas pessoas antes mesmo de qualquer mensagem aparecer. A manipulação é eficaz não porque convence racionalmente, mas porque ativa mecanismos psicológicos automáticos e previsíveis, conhecidos há décadas pela psicologia comportamental, mas agora elevados à escala industrial pelos algoritmos das grandes plataformas.

O primeiro desses mecanismos é o viés de confirmação. Ele faz com que as pessoas procurem, valorizem e recordem apenas informações que reforcem suas crenças prévias. Os algoritmos amplificam esse viés de forma radical. Ao identificar que um sujeito reage com mais intensidade a conteúdos alarmistas, religiosos, conspiratórios ou de indignação moral, o sistema passa a servi-los incessantemente, criando a ilusão de que “todo mundo está falando disso”, mesmo que apenas uma fração mínima da sociedade esteja. O feed se torna um espelho distorcido da própria mente. E quanto mais a pessoa acredita que está “informada”, mais profundamente mergulha dentro da bolha que o algoritmo construiu ao redor dela.

Outro mecanismo decisivo é a heurística da afetividade: o cérebro toma decisões baseadas não na análise racional, mas nas sensações que uma informação desperta. Medo, raiva, repulsa, esperança, devoção religiosa, ressentimento, saudade, orgulho ferido: tudo isso é mensurável, previsível e explorável. Uma pessoa que assiste a vídeos de violência urbana tende a receber mais conteúdos que intensificam sua percepção de ameaça. Uma pessoa que engaja com conteúdos religiosos tende a receber mais mensagens moralizantes que sugerem que a política é uma guerra espiritual. Uma pessoa que demonstra ressentimento social tende a ser exposta a narrativas que identificam inimigos claros e fáceis de odiar. Nesses casos, o algoritmo não sugere informação: ele fabrica atmosferas emocionais.

Esse processo é reforçado pela heurística da disponibilidade. A mente humana tende a considerar mais relevantes e mais verdadeiros os assuntos que aparecem com maior frequência. Não importa se são estatisticamente irreais; importa se são emocionalmente insistentes. Foi assim que comunidades inteiras passaram a acreditar que o Brasil estava à beira do comunismo em 2018, que vacinas causavam doenças em 2020 e que havia um plano secreto para fechar igrejas em 2022. Esses medos não surgiram espontaneamente: surgiram porque milhares de pessoas foram inseridas em distritos cognitivos que repetiam tais narrativas sem descanso. A repetição emocional cria senso de realidade.

O algoritmo também opera como uma máquina de priming, preparando o terreno psicológico para crenças futuras. Antes de uma fake news se espalhar, a plataforma já colocou o indivíduo em estado de alerta emocional, com conteúdos que ativam medo, repulsa sexual, indignação moral ou ansiedade política. Assim, quando a mentira aparece, ela encontra uma mente pronta para absorvê-la. A mentira não vence porque é convincente, mas porque é compatível com o estado emocional que o algoritmo produziu.

No Brasil, isso já se materializou de maneiras extremamente claras. Em 2018, comunidades religiosas foram inundadas por vídeos sobre “ideologia de gênero” e “ameaças à família”, enquanto grupos de jovens homens receberam uma dieta de memes violentos, conteúdos anti-institucionais e discursos militarizados. Em 2020 e 2021, o país assistiu à formação de distritos antivacina que não surgiram de ignorância, mas de um ambiente emocional cultivado por semanas de conteúdos alarmistas. Em 2022, bolhas bolsonaristas receberam mensagens que sugeriam fraude eleitoral meses antes da eleição, criando a percepção de que o resultado seria ilegítimo antes mesmo da contagem dos votos. A psicologia antecedeu a política.

A manipulação só é possível porque o algoritmo conhece o indivíduo melhor do que ele próprio. Ele sabe quanto tempo a pessoa fica olhando para uma imagem de violência. Sabe quais palavras a fazem hesitar. Sabe que tipo de humor a desarma. Sabe qual música a faz sentir saudade. Sabe qual medo é capaz de paralisá-la. Cada reação é convertida em dado. Cada dado se torna predição. Cada predição se converte em influência. E, a partir dessa cadeia, a plataforma constrói a narrativa política mais eficaz para aquele sujeito específico.

É assim que se manipula não apenas a opinião, mas o próprio processo cognitivo que antecede a opinião. Não se disputa mais o voto; disputa-se a mente que vota. O algoritmo transformou o inconsciente político da sociedade em terreno de exploração. E esse é o núcleo do gerrymandering digital: reorganizar emoções para reorganizar o país.

Um novo crime eleitoral

O gerrymandering digital não é apenas um problema de comunicação ou uma distorção algorítmica. Ele é, na essência, um novo tipo de crime eleitoral. No passado, comprar votos exigia dinheiro vivo, cabos eleitorais, transporte irregular de eleitores e mecanismos visíveis de fraude. Hoje, compra-se algo muito mais valioso e muito mais difícil de detectar: compra-se influência comportamental direcionada, calibrada para cada vulnerabilidade psicológica, entregue em tempo real e com precisão milimétrica. Não é a compra de votos; é a compra de condições mentais que determinam o voto.

Essa manipulação é paga, e é aí que reside seu caráter criminoso. Grupos políticos, think tanks, organizações estrangeiras e empresas privadas adquirem pacotes de segmentação comportamental nas plataformas e direcionam conteúdos específicos para cada distrito cognitivo. A operação é simples: paga-se para que certas narrativas sejam invisíveis para uns e inevitáveis para outros. Paga-se para saturar determinados públicos com medo, ódio, rumores conspiratórios, mensagens moralizantes ou ataques coordenados a instituições. Paga-se para apagar do feed de milhões de pessoas qualquer conteúdo que contrarie a emoção dominante daquele distrito mental. A eleição, nesse modelo, não é disputada; é arquitetada.

Essa arquitetura de influência não se confunde com propaganda eleitoral tradicional. Ela ultrapassa completamente o campo da comunicação política porque atua sem conhecimento, sem consentimento e sem possibilidade de defesa por parte do eleitorado. O cidadão não sabe que está sendo manipulado, não tem como perceber a segmentação invisível e não possui ferramentas para contestar as narrativas que dominam seu ambiente informacional. Ele está exposto a uma forma de engenharia comportamental que transforma o próprio processo cognitivo em campo de manipulação comercial e política.

Do ponto de vista jurídico, isso equivale a manipular a soberania popular em sua fase mais profunda: a fase da formação da vontade. Se a vontade do eleitor é moldada por estímulos pagos, calibrados para atingir emoções específicas e entregues de modo diferenciado para cada grupo, então a igualdade de condições entre os candidatos é destruída. Não existe mais isonomia de acesso à informação. Não existe mais neutralidade do debate público. Não existe mais liberdade real de escolha. O que existe é uma assimetria total entre quem paga para modular percepções e quem tenta disputar ideias em campo aberto.

O caráter transnacional dessa operação torna o problema ainda mais grave. Grupos ligados à extrema-direita dos Estados Unidos, da Europa e de Israel já testaram mecanismos de influência segmentada que chegaram ao Brasil por meio das plataformas. As mensagens não precisam atravessar fronteiras fisicamente; atravessam algoritmicamente. E, quando chegam, se instalam diretamente nos distritos cognitivos formados pelo comportamento do público brasileiro. O país passa a viver sob influência de narrativas, interesses e campanhas que não respeitam soberania, leis nacionais ou instituições democráticas.

No plano material, a manipulação não ocorre no voto, mas no processo de subjetivação política. O eleitor acredita que tomou uma decisão livre, quando, na verdade, foi conduzido a ela por um sistema que explorou seus medos, suas inseguranças, seus preconceitos, sua fé, sua raiva ou seu ressentimento. É uma fraude cognitiva. E uma democracia que permite fraude cognitiva permite a destruição silenciosa da vontade popular.

Por tudo isso, o gerrymandering digital precisa ser reconhecido como crime eleitoral moderno, comparável em impacto à compra de votos, à fraude nas urnas e à sabotagem institucional. Ele rompe a soberania informacional do país, desequilibra a competição política e permite que interesses apoiados por capital estrangeiro manipulem a mente do eleitor sem deixar rastro. Não se trata de debate público; trata-se de intervenção comportamental paga, planejada para moldar o resultado da eleição antes mesmo do início oficial da campanha.

Se o Brasil não enfrentar esse mecanismo agora, entrará em 2026 com a ilusão de liberdade, mas com a democracia sequestrada no nível mais profundo: o da consciência.

2026: O risco máximo

A eleição brasileira de 2026 ocorrerá no momento mais perigoso da história das democracias digitais. Diferentemente de 2018, quando a manipulação algorítmica ainda era uma novidade improvisada, e de 2022, quando a extrema-direita já operava distritos cognitivos avançados, 2026 será a primeira disputa nacional inteiramente influenciada por inteligência artificial generativa, modelos preditivos de comportamento e sistemas de recomendação capazes de modular estados emocionais em escala industrial. O que antes era propaganda política agora é engenharia comportamental. E o que antes era mentira espalhada em massa agora é narrativa produzida sob medida para cada indivíduo.

A IA generativa inaugura um patamar inédito de manipulação porque permite que cada eleitor receba mensagens que parecem ter sido escritas especialmente para ele. A mesma máquina que produz vídeos falsos, áudios hiper-realistas e textos emocionalmente calibrados também aprende, em tempo real, o que faz cada pessoa hesitar, clicar, compartilhar, se irritar ou aderir. Isso significa que o distrito cognitivo deixa de ser apenas um grupo e passa a ser, potencialmente, um indivíduo. A micro-segmentação se transforma em nano-segmentação. O alvo deixa de ser uma categoria social e passa a ser uma pessoa de carne, osso e vulnerabilidades psicológicas específicas.

A radicalização política também será intensificada. Os distritos de medo, de indignação moral, de ressentimento e de antipolítica, já bem estabelecidos desde 2018, entrarão em 2026 mais rígidos, mais emocionalmente isolados e mais predispostos a narrativas de ruptura institucional. A lógica é simples: quanto mais o algoritmo reforça emoções extremas, mais ele alimenta comportamentos extremados. Uma pessoa que recebe conteúdos conspiratórios há quatro anos não chega a uma eleição como alguém que está apenas “mal informado”; chega como alguém que vive num ecossistema político alternativo, com leis próprias, supostos inimigos claros e uma sensação constante de guerra iminente.

Esse é o cenário que mais interessa à extrema-direita global. Ao contrário do que muitos imaginam, o objetivo de seus estrategistas não é convencer a maioria — é desestabilizar a percepção coletiva de normalidade, atacar instituições, corroer confiança na Justiça Eleitoral e criar um ambiente emocional tão polarizado que qualquer resultado desfavorável pareça fraude. Essa estratégia já está declarada por figuras do trumpismo, por think tanks conservadores nos EUA, por influenciadores que orbitam Israel e pelo ecossistema internacional que apoiou Bolsonaro. O Brasil é visto como laboratório geopolítico, e 2026 será o experimento mais perigoso.

A ofensiva não virá apenas de dentro. Plataformas estrangeiras, operadas a partir de centros tecnológicos nos Estados Unidos e na Ásia, terão papel central. Seus algoritmos continuam sendo caixas-pretas opacas, incapazes de auditoria pública e integradas a interesses políticos e econômicos que não coincidem com os do Brasil. Em ano eleitoral, pequenas alterações em recomendações, índices de relevância, sistemas de engajamento ou prioridades de conteúdo podem alterar a percepção de milhões de pessoas. A arquitetura que media a democracia brasileira não pertence ao Brasil. E isso é uma vulnerabilidade estrutural.

Diante desse cenário, 2026 representará o ápice da combinação entre gerrymandering digital, guerra híbrida, IA generativa e radicalização emocional de massas. Não se trata apenas de risco eleitoral, mas de risco sistêmico à estabilidade institucional. Um país submetido a distritos cognitivos radicalizados pode reagir de forma violenta diante de qualquer tensão. O ambiente perfeito para tumultos, atos antidemocráticos, rejeição de resultados, sabotagens informacionais e movimentos de massa orientados por narrativas fabricadas fora do controle nacional.

É por isso que afirmo: 2026 será um ponto de inflexão. Se o Brasil não compreender os riscos, poderá enfrentar não apenas manipulação eleitoral, mas uma tentativa coordenada de desgaste institucional que envolve atores nacionais e estrangeiros. Se compreender, poderá se tornar um dos primeiros países do mundo a defender sua soberania cognitiva e transformar a eleição em marco global de resistência democrática.

O que o Brasil precisa fazer agora

Se o gerrymandering digital reorganiza o território cognitivo da nação, a primeira tarefa do Brasil é reconhecer que estamos diante de uma ameaça estrutural à democracia e à soberania, e não de um mero “problema de fake news”. A resposta não pode ser moralista, nem tímida, nem burocrática. Ela precisa ser estratégica, jurídica, tecnológica e institucional, no mesmo nível de sofisticação da ameaça. Não basta reagir a cada mentira viral; é preciso reconfigurar o campo de batalha em que a disputa política acontece.

O ponto de partida é a Justiça Eleitoral. O TSE precisa incorporar explicitamente, em sua doutrina e em suas resoluções, o entendimento de que a manipulação algorítmica do fluxo informacional, quando financiada para fins eleitorais, constitui uma forma de fraude da vontade popular. Assim como a compra direta de votos já é crime, a compra de influência comportamental segmentada, baseada em dados sensíveis e emoções vulneráveis, precisa ser tratada como compra indireta da consciência do eleitor. Isso significa proibir ou restringir severamente o microtargeting político comportamental, exigir transparência total dos critérios de segmentação em anúncios eleitorais e punir com rigor candidatos, partidos, empresas e intermediários que utilizem dados pessoais para modular emoções e crenças de forma oculta.

Em paralelo, o Congresso Nacional deve compreender que regular plataformas não é “censura”, mas uma forma moderna de garantir isonomia democrática. Isso implica criar um marco legal que trate as grandes empresas de tecnologia como infraestruturas críticas da vida pública, com obrigações proporcionais ao poder que exercem. Entre essas obrigações estão: auditoria independente de sistemas de recomendação em períodos eleitorais; transparência sobre quem paga por anúncios políticos, para quais perfis são entregues e com base em quais critérios; proibição do uso de dados sensíveis, como religião, orientação política, estado emocional inferido ou condições de saúde, para fins de propaganda. A liberdade de expressão individual precisa ser preservada. O que deve ser regulado, com firmeza, é o uso industrial da manipulação comportamental paga.

O Executivo, por sua vez, precisa tratar a soberania informacional como questão de segurança nacional. Isso significa construir capacidade técnica própria para monitorar, analisar e responder a operações de guerra informacional, internas e externas. Um país que não consegue enxergar em tempo real como narrativas são distribuídas, quais grupos estão sendo inflados emocionalmente e quais distritos cognitivos estão sendo ativados, entra em qualquer eleição em posição de vulnerabilidade. É urgente criar centros públicos de inteligência comunicacional, articulando universidades, institutos de pesquisa, órgãos de Estado e sociedade civil, capazes de mapear fluxos informacionais e identificar padrões de manipulação antes que eles explodam em crises políticas.

Ao mesmo tempo, o país precisa investir em alfabetização midiática e cognitiva, não como panaceia ingênua, mas como parte de uma estratégia de longo prazo. As pessoas têm direito de saber que seus medos, sua fé, sua raiva e seu ressentimento podem estar sendo explorados deliberadamente por máquinas e por interesses políticos. Precisam entender o básico: que o feed não é um espelho neutro da realidade, que a sensação de “todo mundo pensa assim” pode ser apenas uma curadoria algorítmica, que vínculos emocionais intensos com certas narrativas podem ter sido produzidos artificialmente. Não se trata de criar um cidadão “imune à propaganda”, o que é impossível, mas de reduzir a assimetria brutal entre quem manipula e quem é manipulado.

Nada disso será suficiente se o debate público continuar reduzido a slogans sobre “liberdade de expressão”. A verdadeira questão não é se alguém pode postar uma opinião, mas quem controla a arquitetura que decide quais opiniões circulam, com que intensidade e para quais mentes. Democracia não é apenas o direito de falar, é o direito de não ter a própria percepção sequestrada por sistemas opacos desenhados para maximizar lucro e, por consequência, polarização. Um Estado que abandona seu povo à mercê dessas máquinas abdica de seu dever básico de proteger a integridade da vida pública.

Por fim, a sociedade civil organizada, a imprensa responsável, os movimentos democráticos e o campo progressista precisam entender que a luta contra o gerrymandering digital não é uma pauta técnica, restrita a especialistas. É uma frente de defesa da própria possibilidade de futuro democrático. Não basta denunciar fake news; é preciso denunciar o modelo de negócios que transforma a mente em mercadoria e a subjetividade em campo de exploração eleitoral. É preciso exigir transparência, pressionar por regulação, apoiar iniciativas de soberania tecnológica, fortalecer pesquisas independentes e produzir, também nas redes, contra-hegemonias informacionais que resgatem a centralidade da realidade material contra a avalanche de simulacros.

O Brasil ainda tem tempo. A eleição de 2026 ainda não chegou, mas a guerra pelo território cognitivo já está em curso. Cada dia sem reação é um dia em que distritos mentais são consolidando, afetos são cristalizados, percepções são distorcidas e a democracia é corroída silenciosamente, por dentro. Enfrentar o gerrymandering digital agora é a condição mínima para que, quando o eleitor digitar seu voto, esse gesto ainda tenha algo de verdadeiramente livre.

Conclusão — O cartógrafo invisível da democracia

A democracia moderna sempre dependeu de mapas. No passado, eram mapas físicos, traçados à caneta por legisladores interessados em manipular fronteiras para favorecer determinados grupos. Hoje, o mapa crucial não é geográfico, mas cognitivo. Ele não é desenhado por políticos, mas por algoritmos. Não está guardado em cartórios nem em tribunais; está distribuído nos servidores das grandes empresas de tecnologia, que redesenham incessantemente o terreno emocional onde cada cidadão vive sua experiência política cotidiana. O cartógrafo da democracia contemporânea não é humano. É um sistema que mede, prediz e explora padrões mentais com o objetivo de maximizar engajamento e, como efeito colateral devastador, modular comportamento político.

Esse cartógrafo invisível não reorganiza distritos físicos, mas distritos afetivos. Ele não agrupa pessoas por bairros, mas por medos, inseguranças, crenças religiosas, gatilhos morais, ressentimentos e vulnerabilidades cognitivas. E, ao fazer isso, transforma o processo eleitoral em algo fundamentalmente assimétrico: alguns cidadãos vivem em ambientes informacionais equilibrados, enquanto outros são inundados por narrativas que reforçam emoções extremas, ampliam percepções distorcidas e corroem a capacidade de julgamento crítico. O voto é secreto, mas a emoção que antecede o voto é manipulável. E é essa manipulação silenciosa, sofisticada e invisível que coloca as democracias em risco.

Se o Brasil não enfrentar essa realidade com a seriedade que ela exige, chegará a 2026 com uma eleição formalmente livre, mas materialmente comprometida. A disputa não será entre ideias, mas entre ecossistemas psíquicos radicalmente diferentes. A crítica, o debate e o dissenso terão sido substituídos por zonas de afeto altamente controladas, criadas para ativar as emoções mais lucrativas e, muitas vezes, mais destrutivas. A hegemonia não aparecerá como projeto político, mas como sensação espontânea, como “verdade emocional” fabricada no interior de bolhas cognitivas.

A boa notícia é que ainda há tempo. Quando uma sociedade reconhece que está sendo manipulada, dá o primeiro passo para recuperar sua autonomia. Quando um Estado entende que sua soberania informacional está em disputa, pode construir mecanismos para defendê-la. E quando instituições democráticas passam a ver algoritmos como agentes políticos de fato, e não como meras ferramentas neutras, podem regulamentar, auditar e limitar seu poder. A História mostra que nenhum mecanismo de dominação é absoluto: todos podem ser desarmados quando nomeados, denunciados e enfrentados coletivamente.

Mas é preciso agir agora, não quando a próxima crise acontecer. Agora. Antes que o mapa mental do país seja totalmente controlado por máquinas que não respondem à sociedade brasileira. Antes que a opinião pública seja definitivamente substituída por percepções fabricadas. Antes que a democracia se torne apenas um ritual formal, esvaziado de sua substância.

O Brasil precisa recuperar a capacidade de decidir seu próprio destino. E isso só será possível quando compreendermos que o território mais disputado da política contemporânea não é o espaço físico, mas a mente humana. Se quisermos proteger o país, precisamos proteger o cidadão da manipulação invisível que molda sua percepção sem que ele perceba. Precisamos enfrentar o cartógrafo silencioso que desenha o país dentro de cada pessoa.

Defender a democracia, hoje, significa defender a soberania cognitiva. E esse é o desafio histórico do Brasil.

quinta-feira, janeiro 15, 2026

"EUA buscam a centralização do poder unipolar através de um império militar global com cerco e contenção da China e da Rússia, através da imposição pela força de novas regras do jogo com sua arbitragem final", por José Luís Fiori

Texto do professor José Luiz Fiori (UFRJ) que abre o 15º Boletim do Observatório Internacional do Século XXI (Janeiro 2026).


No caminho do caos

Por José Luiz Fiori 

Na última semana de 2025, o sistema mundial entrou em estado de hipertensão caótica. Em apenas sete dias, e quase simultaneamente, os Estados Unidos fecharam o cerco marítimo e proibiram a circulação aérea sobre a Venezuela, sem que os dois países estivessem em guerra. A China cercou a ilha de Taiwan e realizou um exercício de guerra com fogo real, incluindo a interdição de alguns segmentos de seu espaço aéreo, em resposta às ameaças militaristas do Japão. A Ucrânia atacou a casa do presidente russo Vladimir Putin, na região de Novgorod, utilizando 91 drones e com apoio da inteligência inglesa e norte-americana. A Rússia anunciou que seu novo sistema de mísseis Oreshnik – indefensáveis e com capacidade nuclear – estava pronto para uso imediato, em resposta ao ataque da Ucrânia, a poucos minutos de distância de Berlim, Paris e Londres. Os Estados Unidos bombardearam o território da Nigéria e anunciaram novos ataques aéreos em caso de necessidade, segundo seu arbítrio. A Arábia Saudita bombardeou o Iêmen, sem que houvesse declaração de guerra. Inglaterra e França bombardearam o território da Síria sem aviso prévio. E por fim, os Estados Unidos atacaram o território venezuelano e sequestraram seu presidente, Nicolás Maduro.

O mais impactante foi sem dúvida o rapto do presidente venezuelano, seguido – como em outros ataques américas - de um tweet de Donald Trump, contendo ameaças e difundindo o medo que é uma peça essencial no exercício do poder. Assim mesmo, o ataque em si não representa uma novidade nas relações dos EUA com a América Latina, muito menos na história do “sistema interestatal” inventado pelos europeus. Os defensores do Direito Internacional em geral falam muito pouco, ou omitem diretamente uma de suas cláusulas fundamentais, a “cláusula de exclusão de ilicitude”, que garantiu às Grandes Potências do sistema interestatal (nunca mais do que 4 ou 5) o “direito” autoatribuído e a impunidade para de atacar e invadir o território de outros países, sem respeitar o “direito à soberania” considerado como a “pedra angular” do sistema de estados nacionais consagrada pelos europeus através da chamada Paz de Westfália, assinada em 1648. A Inglaterra e a França usaram e abusaram deste “direito à invasão” nos últimos 200 anos, e acabaram de bombardear a o território da Síria, sem nenhum tipo de permissão internacional, por sua livre e exclusiva vontade. E, os Estados Unidos ingressaram neste pequeno clube dos países “com direito à invasão de terceiros”, em meados do século XIX, quando se apropriaram dos territórios mexicanos da Califórnia e do Texas, e iniciaram sua escalada imperial, após a guerra contra a Espanha, em 1898, seguida pela conquista de Cuba, Filipinas, República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá e Porto Rico – este segue até hoje sob o domínio norte-americano.

Em 1942, o geopolítico norte-americano Nicholas Spykman publicou uma obra fundamental1 para entender a estratégia internacional dos EUA depois da Segunda Guerra Mundial. Spykman sustenta teses e faz propostas geopolíticas que reaparecem a cada momento por trás do discurso aparentemente errático e confuso de Donald Trump e do seu Secretário de Estado, Marco Rubio.

Nicholas Spykman considerava que o Caribe e o Golfo do México faziam parte de um mesmo “mar interior” dos Estados Unidos, no qual Mexico, Colômbia e Venezuela deveriam estar sob dependência direta dos Estados Unidos, por razões de segurança nacional, sem necessitar de nenhum tipo de justificativa doutrinária ou ideológica. Quase a mesma ideia que reaparece textualmente na nova “Estratégia de Segurança Nacional” dos Estados Unidos, divulgada pelo governo de Donald Trump no início de dezembro de 2025.

 O texto da “nova estratégia” contém inconsistências e carrega a marca da pressa e da colagem de várias posições que não são convergentes entre si. Mas não há dúvida de que a parte dedicada ao Hemisfério Ocidental foi escrita e incluída de forma apressada para justificar a ocupação militar americana do Caribe, e o seu ataque futuro à Groenlândia que também fica dentro do chamado Hemisfério Ocidental. E neste ponto não há que ter dúvidas: enquanto durar o governo de Donald Trump, depois do ataque à Venezuela, o que se deve prever é um assédio constante ao México, e um ataque com a proposta de submissão de Colômbia, Nicarágua e Cuba – neste caso, com o objetivo de destruir a própria memória da Revolução Cubana. Mas não é provável que ocorra nenhuma intervenção militar no resto da América do Sul – nem seria necessário, porque a maioria dos governos sul-americanos já está de joelhos por vontade própria, aceitando a instalação de bases militares em seus territórios que assegurem, no longo prazo, o cerco militar da massa continental, e do Brasil em particular. Os demais países sul-americanos não têm maior importância geopolítica e não representam nenhuma ameaça de fato para os Estados Unidos, a despeito da presença econômica da China.

Apesar do alvoroço em torno da questão hemisférica, amplificado pelo ataque à Venezuela, o verdadeiro interesse e o objetivo central da Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos não é a América Latina, mas a conquista da Groenlândia, a destruição da União Europeia, o esvaziamento da OTAN e a proposta de um novo modus vivendi com a Rússia e a China. É possível que Donald Trump jamais tenha lido Spykman, nem conheça sua tese de que o domínio mundial dos EUA dependerá de sua capacidade de construir um cerco militar em torno da “massa continental” eurasiana. Mas não há dúvida de que este é um objetivo central da proposta de Trump, de incorporar a Groenlândia ao território norte americano, completando o cerco atômico da Rússia e da China pelo lado do Ártico, onde estaria a nova grande fronteira geopolítica e geoeconômica do mundo. Com o avanço do degelo das regiões polares, o Ártico aparece como importante “ponto de fuga” do sistema, por onde se poderá escoar a energia criada pela intensificação da luta entre as grandes potências. E onde deverão se multiplicar os novos espaços de competição entre as grandes corporações do capitalismo global.

A proposta de deslocamento ao norte da “fronteira russa” da disputa do poder global explica em boa medida o ataque demolidor da “Nova Estratégia” de Trump contra a União Europeia, contra o formato atual da OTAN e contra todos os valores cultivados pela “ética internacional” e pelo “universalismo” da cultura europeia. O novo documento fala explicitamente em devolver a Europa à sua velha condição de “mosaico” de pequenos Estados independentes e competitivos entre si, de forma a facilitar sua tutela bilateral pelos Estados Unidos.

Muitos analistas consideram que esse novo documento estratégico americano contém uma proposta implícita de construção de uma nova “ordem mundial” multipolar e multicivilizatória, sustentada por três grandes impérios ou “zonas de influência”, que seriam comandados por Estados Unidos, China e Rússia. Alguns fatos recentes, entretanto, e algumas outras realidades consolidadas parecem contradizer esta tese e reforçar uma hipótese diametralmente oposta.

Em primeiro lugar, há que ter presente que os Estados Unidos ainda são a única potência no mundo que possui e comanda uma infraestrutura militar global, com capacidade de intervenção imediata em quase todas as latitudes. Em cima disso, o presidente Trump acaba de anunciar para 2027 um aumento de 50% do orçamento militar norte-americano, no valor de 1,5 trilhão de dólares. Faz alguns meses Donald Trump já havia anunciado um programa de 830 bilhões de dólares para a criação um sistema de defesa aérea “impenetrável”, que ele chamou de Golden Dome, e um ambicioso projeto de modernização da Marinha dos Estados Unidos, o Golden Fleet, que se propõe a construir uma nova geração de navios de guerra integrando tecnologia de IA, lasers e armas hipersônicas, para garantir a supremacia marítima dos Estados Unidos.

Além disso, no dia a dia da gestão de sua política externa, Trump tem feito questão de demonstrar um poder universal de arbitragem e intervenção direta e instantânea em qualquer lugar do mundo, explicitando sua ingerência externa nos assuntos políticos nacionais de vários países. Um conjunto de decisões que não apontam para um poder compartilhado; pelo contrário, explicitam uma decisão clara de centralização do poder, e de cerco e contenção da China e da Rússia. No máximo, um oligopólio tripolar com dominância em última instancia dos Estados Unidos.

Ou seja, ao contrário do que muitos pensam, o projeto estratégico de Trump que está em pleno curso, representa uma aposta ainda mais radical na conquista unipolar de um império militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem final dos Estados Unidos, regras e arbítrio que poderão variar a cada momento, segundo os interesses e a vontade circunstancial dos Estados Unidos.

Esse projeto, entretanto, deverá provocar uma forte reação contrária da China e da Rússia, e talvez da própria Europa, e deverá estimular a multiplicação das potências atômicas ao redor do mundo. Além disso, no médio prazo, deve incentivar o uso da força em todo e qualquer conflito ou disputa regional, uma vez que a nova regra imposta pela potência dominante, é a da imposição da vontade dos mais fortes, por cima de qualquer lei ou inibição ideológica. Um caminho seguro, quase direto, na direção do caos.

Link do texto do 15º Boletim do Observatório Internacional do Século XXI que tem como título "Hipertensão e caos". Íntegra do boletim (Janeiro 2026) no link abaixo:  https://nubea.ufrj.br/images/Observatorio/Boletim_15_Janeiro_2026.pdf.

quarta-feira, dezembro 10, 2025

Sua internet e seus aplicativos estão mais lentos? Merdificaram nossa internet?

Eu faço essa pergunta há alguns meses aos amigos mais próximos? A maioria responde que sim e cita exemplos, informando ainda que isso independe das redes que utilizam. Internet fixa ou móvel. Com ou sem uso de wi-fi. Em diferentes pontos do Brasil e/ou no exterior.

Uma das explicações para isso é que os fluxos de internet aumentaram muito e isso se dá não apenas pelo aumento do nº de usuários, agora mais residual, mas pela ampliação de uso da internet (tempo de tela) ao longo do dia, quando são utilizados para mais finalidades e em diferentes países.

Grosso modo, a sensação é que o crescimento mais expressivo desses fluxos de dados se dão com a intensificação do uso da IA, seus chatbots ou LLM (modelo de linguagem, tipo Chat GPT, Gemini, DeepSeek, etc). O treinamento de máquina (deep learning, treinamento profundo) também para uso da IA ocupa enorme banda com captura de dados mais conteúdos para acesso aos dados armazenados e processados. 

Já há alguns estudos que identificam e trazem evidências de que o uso da IA traz prejuízos para a navegação e para a internet como um todo. Entre outros exemplos empíricos, eu identifiquei um pessoal dessa enorme captura de dados através dos acessos diários e vindos do exterior a esse blog. 

Nos dois últimos anos os acessos a esse blog pessoal se multiplicou por cinco ou seis vezes, alcançando médias entre 15 e 20 mil diárias, provavelmente, pela localização dos datacenters no exterior, para uso como conteúdo em treinamento de máquinas (machine lerning, ML) para uso em IA. É uma espécie de "arrastão de conteúdo" feito na web com uso de robôs de busca, a partir da pesquisa online realizada pelas plataformas de inteligência artificial.

Os usos das diferentes IAs, mais gerais e/ou específicas, com perguntas (prompts) e diálogos geram enorme fluxo entre os usuários e os datacenters usados pela plataformas de IA. Ao contrário do que normalmente se pensa, os datacenters não são iguais e não diferem apenas pelo porte ou tamanho.

Existem os datacenters que servem basicamente para armazenagem de dados (clouds, as famosas nuvens) e outros que servem para treinamento de máquinas que atendem às IAs (aprendizagem profunda ou deep learning, etc.) e seus chatbots. Eles trabalham com processadores e máquinas com altas capacidades de computacionais, porém, ambos, trabalham movimentando altos fluxos de dados que dialogam com programadores de algoritmos e com usuários de serviços digitais de diversos tipos, incluindo os chatbots de IA.

Atualmente, o ChatGPT da OpenAI tem cerca de 800 milhões de usuários no mundo (cerca de 50 milhões no Brasil, 3º maior usuário do mundo), enquanto o Gemini da Google (Alphabet) já alcançou cerca de 650 milhões. Centenas de milhões de usuários desses chatbots processam mais de 1 bilhão de consultas todos os dias. Assim, eles seguem crescendo, junto com outras IAs, tanto em número de usuários, quanto no tempo utilização, movimentando fluxos crescentes destes valiosos dados. 

Os dados seguem sendo capturados em diferentes atividades humanas, da natureza, das coisas, máquinas, etc. A dataficação é um processo que se situa numa camada acima da digitalização, onde os dados além de serem extraídos, são tratados, armazenados, treinados e circulam entre os usuários da tecnologia digital e os locais onde são armazenados e buscados para serem utilizados.

É nesse contexto que os dados se transformaram em commodities, em ativo e em capital. Dados como capital digital e como tal sua acumulação precisa sempre ser ampliada (assim como o capital), em seguidos ciclos de reprodução que leva a mais inovações e novos mercados. Daí a IA avança para IA Generativa (Gen AI), Super AI, etc. e esse processo ajuda a explicar o gigantismo de muitas corporações de tecnologia e também a intensificação dos fluxos de dados entre os datacenters e os usuários.

Cada vez mais infraestruturas digitais são exigidas. Mais datacenters, mais cabos submarinos, mais torres para internet móvel, redes para integrar as telecomunicações e assim manter a conectividade que é questão chave nesse processo. Porém, a velocidade de instalação dessas infraestruturas se dá em tempo bem menor do que a ampliação de uso delas cada vez com maiores fluxos.

Esse link (aqui da HE 3D Network Map) mostra um mapa em 3D com o fluxo de dados entre os datacenters circulando através dos cabos submarinos em todo o planeta. Não se trata de um mapa planificado e sim o próprio globo que pode ser girado para se ver os movimentos deles entre os países e os continentes, com destaques para as redes que são espinhas dorsais (back-bone) com maiores e mais densos fluxos. Clicando nos pontos é possível identificar os datacenters, sua localização, nome, propriedade e imagem do prédio físico, assim como as informações sobre os cabos submarinos ao redor do mundo.

São imagens que ajudam a superar a visão abstrata (chamada de virtual) sobre esses fluxos que estão instaladas no território, no mundo real e não nas nuvens (clouds). As imagens dão uma boa dimensão sobre esse frenético fluxo de dados em termos dos gargalos das infraestruturas digitais, intensificado com um maior uso da IA em todo o mundo. 

As IAs, mobilizam mais algoritmo e dados que uma simples busca. Para ilustrar apostagem postarei abaixo um breve vídeo dessa página do Mapa 3D para passar ao leitor uma ideia daquilo que o link oferece em termos de informações e de compreensão do fenômeno a que se está referindo.


Em síntese, nossa internet está ficando bem mais lenta. Não adianta ou adianta pouco pagar mais às operadoras por maiores velocidades de internet. O problema é mais geral. Aplicativos de bancos são um exemplo dessa lentidão e praticamente independe dos bancos. Os acessos a alguns sites jornalísticos também. Uns mais outros menos, porém na média, todos estão um pouco mais lento e parece que tendem a piorar, considerando que a implantação de novas infraestruturas se dão em velocidades menores do que a ampliação do uso. Até mesmo as redes (mídias sociais) aparecem mais lentas no carregamento de imagens e vídeos.


“Merdificação” da internet?

Essa realidade me fez lembrar o autor canadense Cory Doctorow, em seu recente livro: “Enshittification: Whyevething Suddenly Got Worse and What to Do About It” (Merdificação: por que tudo piorou de repente e o que fazer a respeito). Doctorw fala que tudo na internet em especial, as redes sociais, está ficando pior, em alguns casos bem pior. Os serviços por plataformas digitais, os mecanismos de buscas, etc.

O autor argumenta que as grandes corporações de tecnologia se tornaram cada vez mais poderosas, assim se aproveitam do crescente número de usuários que dependem de suas plataformas (plataformização de quase tudo) e passam a aumentar suas taxas de lucros e assim arrocham clientes e parceiros na busca por mais lucros, num universo oligopolizado e quase sem competição. O resultado é a merdificação, sic. O livro do Doctorw vale ser lido e seus argumentos analisados.

O fato é que cada e-mail aberto ou enviado, um clique de joinha, um breve comentário, foto ou vídeo postado, em sites, blogs, ou qualquer perfil das redes sociais, um download, etc. tudo isso gera fluxo no ritmo 24/7 (horas e dias por semana) e entopem as atuais infraestruturas digitais. Uma busca ou uma pergunta num chatbot de IA aflora o fluxo de dados.

Os investidores, capital de riscos e fundos junto com as Big Techs cada vez se mostram dispostas a colocar mais dinheiro, mesmo diante da ameaça do estouro da bolha de IA na construção de novos datacenters. Porém, apenas se transfere o gargalo que sai da infraestrutura digital e tem passado para a infraestrutura de energia elétrica que é necessária para alimentar esses Big Datas. As usinas geradoras de energia e linhas de transmissão não têm como ser construídas de uma hora para outra, mesmo que instaladas em quaisquer lugares do mundo onde possam, eventualmente, existirem “sobras energéticas”.

Tudo isso sem falar que onde há energia, mesmo que renovável, pode não haver água em volume suficiente para refrigerar esses gigantes parques de máquinas de computação (para programação algorítmica) e armazenagem de memória de dados, sem que as comunidades nativas sejam impactadas. Assim, parece que a merdificação vai se espalhando pelo território de forma integrada para além da internet, através dos sistemas interligados, que muitos se acostumaram (e mal) a chamar de ecossistema.

A digitalização, a dataficação e o avanço da tecnologia não são um problema per si. A tecnologia digital tem trazido inúmeras vantagens que a sociedade e as nações não querem perder, mesmo considerando que pouquíssimos países desenvolvem as tecnologias, controlam e disputam a liderança da IA nas fronteiras de seu desenvolvimento. Enquanto isso, outras nações têm se situado como contumazes consumidoras digitais, colonizadas e sem soberania.

Nessa ótica, imagino que vale observar que as duas nações líderes desse processo não se portam de maneira exatamente igual dentro do atual contexto. [Porém, isso exige análise mais ampla]. Assim, penso que nos interstícios desses sistemas, existem oportunidades e desafios para o Brasil e demais nações do Sul Global.

A questão é o nível de uso, as desigualdades de acesso e, principalmente, o controle desse sistema digital integrado, pelos maiores oligopólios da história da humanidade, que seguem exigindo liberdade para fazer o que querem, sem nenhuma regulação e/ou controle.

O avanço e o ciclo de desenvolvimento dessa nova onda tecnológica não são o problema per si. O nó górdio é o velho sistema desigual e combinado que merdificam as coisas, a natureza e as nossas relações sociais e políticas. O que se necessita para superar essa merdificação é bem mais que regulação, mas a luta por essa é o mapa do caminho digital, para usar outra expressão da moda e fechar esse artigo-análise.

domingo, dezembro 07, 2025

Economia Política da Tecnologia Digital no Brasil: extrativismo Hi-Tech das Big Techs

Uma análise um pouco mais detalhada sobre os dados das receitas, impostos e remessas ao exterior realizadas pelas Big Techs no Brasil, apontam para uma enorme extração de valor e transferência de renda e também de poder político realizada por essas gigantes corporações sobre o país.

A Google e a Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp) obtêm cerca de 40% das suas receitas nos EUA, onde se localizam as suas sedes, mas lá que pagam aproximadamente 80% dos impostos, fora o que ainda pagam de dividendos e lucros aos seus acionistas (fundos e grandes investidores nos EUA).

Ou seja, nos demais países, onde conseguem 60% de suas rendas com usuários dos seus serviços, essas Big Techs pagam apenas cerca de 20% do total em impostos. E ainda reclamam das cargas tributárias dos países mundo afora.

Em matéria na FSP, publicada hoje (07 dez. 20250, p. A28), da jornalista Patrícia Campos Melo com título e subtítulo: “Big Techs enviam mais dinheiro ao exterior, mas tributação da remessa cai – Entre 2014 e 2024, grandes empresas de tecnologia passaram a enviar para fora mais de metade do que ganham no Brasil, faturamento bruto das plataformas cresceu 585%”, alguns dados reafirmam não apenas o tamanho da economia de dados e da tecnologia digital no Brasil, como um dos maiores mercados do mundo, como também expõem o tamanho da extração que realizam no país. [1]

Em 2024, as Big Techs alcançaram R$144 bilhões em receita bruta no Brasil e remeteram ao exterior o enorme valor de R$ 80,3 bilhões, equivalentes a 55% da receita, valor bem superior aos R$ 2,8 bilhões (atualizados e corrigidos) do que enviaram ao exterior há dez anos através em 2024. O pico em termos percentuais dessa remessa ao exterior se deu em 2023 quando chegou a 61,8% da receita bruta (e não a líquida que foi ainda bem maior.

Estudo encomendado à Consultoria LCA pelas próprias Big Techs, através da associação que representa a Amazon, Google e Meta no Brasil (Câmara Brasileira de Economia Digital), admite que recolhem apenas 16,4% de suas receitas brutas (não líquida) em tributos.

A matéria traz ainda infográficos com dados da Receita Federal sobre a evolução das receitas brutas totais das Big Techs entre 2014 e 2024, assim como das remessas de lucros enviadas ao exterior.



Através dele é possível identificar o valor de R$ 80,3 bilhões enviado pelas Big Techs ao exterior no ano passado (2024). Para se ter uma ideia desse volume de recursos, podemos ver que ele é aproximadamente igual ao valor dos investimentos federais do Brasil para o orçamento de 2026 (LOA) equivalente a R$ 85,5 bilhões. 

É um valor colossal, espantoso. Se tabularnos os últimos 5 anos (2020 a 2024), vê-se que as remessas enviadas ao exterior somam aproximadamente R$ 260 bilhões, quase U$ 50 bilhões, segundo dados da Receita Federal.

Trata-se de uma espécie de vampirismo digital ou um extrativismo Hi-Tech que essas gigantes corporações realizam sobre a economia de todo o país, considerando sua atuação transversal e transsetorial com amplo espectro de atuação.

Atualmente, as Big Techs têm a proteção política de Trump que exige “liberdade” e ameaça as nações que tentam regular e tributar justamente esses oligopólios americanos. 

Assim, essas gigantes corporações americanas que operam como plataformas-raiz, estabelecem o que temos chamado de dominação tecnológica que explica a formação desses maiores oligopólios da história da humanidade, articulados e controlados sob a lógica da hegemonia financeira em processos de assetização realizados pelas gestoras dos grandes fundos globais. Há que se impor limites para essa extração de valor.


Referência

[1] Folha de São Paulo. Patrícia Campos Melo em 07 dez. 2025, p. A28. Big Techs enviam mais dinheiro ao exterior, mas tributação da remessa cai – Entre 2014 e 2024, grandes empresas de tecnologia passaram a enviar para fora mais de metade do que ganham no Brasil, faturamento bruto das plataformas cresceu 585%. Disponível em:  https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/12/parcela-do-faturamento-das-big-techs-remetida-ao-exterior-aumenta-323-enquanto-taxacao-de-remessas-cai-73.shtml

segunda-feira, dezembro 01, 2025

Num único dia, infraestrutura digital do Pix tem 206 mil transações por minuto e movimenta 1,4% do PIB: finanças lubrificadas pela dominação tecnológica

A relação entre Finanças e Tecnologia é um "fator-chave" para entender o capitalismo contemporâneo. É uma relação cada vez mais densa e imbricada, que demanda uma colossal infraestrutura digital de datacenters, cabos, redes satélites, etc.

O discurso e a ilusão da virtualidade, desconectada do território, já passaram. O ambiente FiDigital, entre o físico da economia real e o digital, depende da conectividade das redes com fluxos de dados que circulam como commodities, criando novos mercados que ampliam os ciclos de reprodução.

O Pix como meio de pagamento e transferências digitais traz enormes facilidades. Hoje, segundo o Banco Central (BC), 90% das transações e movimentações financeiras são feitas por plataformas móveis. 

Em novembro de 2025, os usuários do Pix somavam 178 milhões entre pessoas físicas e jurídicas. Vale registrar que sem a internet móvel dos celulares esse percentual não teria avançado tanto. [Vide postagem anterior no blog: "O papel dos celulares na expansão do uso da internet, extração de dados e dominação tecnológica".] [1]

O recorde da última sexta-feira (28/11), divulgada pelo BC de 297,4 milhões de transações num único dia, equivale a 206 mil transações por minuto, que movimentou um total de R$ 166,2 bilhões, cerca de 1,4% do PIB. Tudo isso num único dia. [matéria do Valor, 01/12/2025, imagem ao lado] [2]

Se trata de uma fluidez colossal, em que o Pix facilita, supera o uso dos cartões e transações em dinheiro vivo, mas também lubrifica o capitalismo que segue se deslizando entre as finanças e a tecnologia digital.

Na mesma matéria do Valor, o Banco Central se refere ao instrumento do Pix como infraestrutura digital dentro dessa lógica da digitalização e Dataficação, na qual a demanda das finanças move a tecnologia digital e vice-versa: “O resultado é mais uma demonstração da importância do Pix como infraestrutura digital pública para o funcionamento da economia nacional”.

É oportuno observar como o ambiente FiDigital opera entre a digitalização da informação na movimentação financeira com a aquisição de bens e serviços e a materialidade da economia real. Os negócios operam entre a demanda para o consumo e a produção, com a circulação sendo realizada pela intermediação das plataformas digitais, no processo a que temos chamado de  “Plataformismo” como uma nova etapa do Modo de Produção Capitalista (MPC).

Tudo isso, sem abandonar as etapas anteriores, do Taylorismo/Fordismo e Toyotismo, que são ressignificadas, com controle maior e online do trabalho humano, e com ainda maior fluidez do processo de acumulação flexível das finanças digitalizadas.

Os bancos perderam receitas com as transferências grátis via Pix, intermediada pela infraestrutura do BC, mas ganharam com enorme inclusão digital e com a abissal quantidade de novos mercados, negócios e dados que essas informações financeiras das transações via Pix, lhes conferem.

Há muito mais a ser compreendido pelo potencial de transformações que a lubrificada relação entre finanças e tecnologia está produzindo no presente. O uso da Inteligência Artificial (IA), inclusive a GenIA (IA Generativa) que já é realizada desde 2017, de forma intensa por bancos, fintechs, gestoras de fundos financeiros e mercado de capitais, tem intensificado e acelerado esse processo.

Esse avanço da digitalização torna o setor financeiro não apenas o principal demandador e financiador das novas tecnologias e infraestruturas digitais, mas o maior beneficiário desta coevolução. Essa intensa relação explica, em boa parte, o avanço do processo de Dominação Tecnológica junto da Hegemonia Financeira, ou vice-versa. Uma não avança sem a outra no capitalismo contemporâneo.


Referências:

[1] Artigo no blog em 03 de novembro de 2025. O papel dos celulares na expansão do uso da internet, extração de dados e dominação tecnológica. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2025/11/o-papel-dos-celulares-na-expansao-do.html.

[2] Matéria no Valor online em 01 de dezembro de 2025. Pix supera 297 milhões de transações e R$ 166 bilhões em um único dia e bate recorde na Black Friday. Disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2025/12/01/pix-supera-297-milhes-de-transaes-dirias-e-bate-recorde.ghtml

segunda-feira, novembro 03, 2025

O papel dos celulares na expansão do uso da internet, extração de dados e dominação tecnológica

96% dos usuários de internet no mundo usam celular para acessar à internet e muitos entre nós ainda não se deram conta que a internet não teria se expandido tanto em uso, se não fossem os celulares.

A telefonia móvel com uso dos celulares além de levar internet mais barata a mais pessoas e lugares, permitiu um uso ampliado, numa espécie de regime que ficou conhecido como 24/7, todas as horas do dia nos sete dias da semana. Ou seja, em condições de estar online o tempo todo.

Muitos também duvidaram que os celulares tipo smartphone se tornariam baratos e de uso amplo tornando o computador de mesa ou laptop uma opção complementar para acesso à internet.

Na prática, pode-se dizer que as telecomunicações expandiram a digitalização da informação e permitiu que a “dataficação” (captura de dados como questão central) estruturasse uma colossal economia de dados com participação transversal em todos os setores da economia, em diferentes lugares do mundo, fato que nos remete e explica o gigantismo das corporações de tecnologia (Big Techs) que ora assistimos.



2/3 da população usa internet e 96% deste contingente acessa pelo celular

Estamos falando da extração de dados de 6,04 bilhões de usuários de internet no mundo, ou 73,2% da população mundial, em números, agora, de outubro de 2025.

Insisto, a dataficação no mundo só ganhou volume com o uso do celular. O equivalente a 96% dos usuários de internet no mundo usa celular para acessar à grande rede, estatística global, agora em outubro de 2025. Os celulares são ainda responsáveis por 60% do tráfego mundial da web (internet).

Atualmente, é fácil encontrar pessoas que nunca usaram um computador de mesa, ou laptop, mas que usa intensivamente - e de forma ampla - os recursos dos celulares. Seus aplicativos, são mais amigáveis que os softwares dos computadores. Além disso, os celulares são em geral bem mais baratos e têm portabilidade, podendo serem levados para qualquer lugar e em qualquer tempo.

Amigos professores têm, sistematicamente, relatado vários casos de alunos que nunca usaram um computador. Estes, sequer conseguem entender qual seria sua utilidade destes, se o celular pode fazer tudo que o equipamento móvel (mobile) faz.

A portabilidade do celular nas mãos, no bolso ou nas bolsas e sua quase imprescindibilidade para a comunicação instantânea (cada vez mais por mensagem de todo tipo, texto, áudio e/ou vídeo) tem levado a um uso exagerado das telas para todo tipo de atividade, rompendo a barreira entre trabalho, compras, serviços, estudo, atendimento à saúde, lazer, etc.



Tempo de tela está diretamente ligado à internet móvel usada nos celulares

A média global de uso da internet está hoje em 6h38 por dia. Já os brasileiros passam 9h13 conectados, sendo 3h37 nas redes sociais com outros usos que cruzam a simples interação social. O brasileiro em média tem ainda cerca de 1,2 celulares (smartphones) por habitante. O fluxo de dados gerados por esse movimento gera uma colossal extração de dados e de valor. 

Os diferentes usos dos celulares e da internet se integram em vários sistemas (que alguns gostam de chamar de ecossistema), plataformas e aplicativos que servem de infraestrutura digital para ligar duas pontas que também se misturam entre produção e consumo.

A digitalização e a dataficação da sociedade são processos complexos que se articulam com a economia, a política, a geoeconomia, a geopolítica e as relações de poder em diferentes esferas, porém para uma análise mais aprofundada desse fenômeno é preciso que algumas destas passagens, na linha do tempo do uso, da nova onda da tecnologia digital fiquem mais claras.



Dados como fator de produção, sociedade dataficada e hegemonia financeira

O uso expandido dos celulares ampliou o maior acesso da internet (móvel) e de todas as demais utilizações aí penduradas e dependentes. Portanto, essa é uma destas importantes etapas da tecnologia digital e a que melhor explica a explosão da “sociedade dataficada”.

Além do poder da comunicação móvel e portátil na expansão do uso da internet (quase 2/3 da população mundial) que o celular oferece, a tecnologia digital possibilita a ampliação de outro fenômeno que ganha potência com o regime 24/7, a “dataficação”. Essa quase onipresença da tecnologia digital em nossas vidas, mistura o trabalho vivo com o trabalho morto, extraindo valor de ambas, durante todo o tempo e em todo tipo de navegação na internet. 

Assim, hoje, já se trabalha com a ideia dos dados como fator de produção. Dados extraídos de quase tudo no mundo, natureza, das coisas, máquinas, das comunicações, das pessoas (seus movimentos, desejos, pensamentos, etc.).

Dados como commodity e como capital. Na sociedade contemporânea, ambos: os dados e o capital precisam sempre ser ampliados. Eles não podem interromper essa trajetória de acumulação para não fenecerem, o que leva ao conhecido ciclo de reprodução e aos novos mercados que vemos diariamente.

Assim, observa-se como o grande capital (o Big Money) investiu, e segue investindo, fortemente nas grandes corporações que se tornaram as Big Techs. Mas não se trata apenas de investimentos e retorno aos investidores.

O interesse e a demanda que o grande capital nutriu pela imposição da hegemonia financeira, partiram da compreensão do potencial pervasivo (grande capacidade de se espalhar) que a tecnologia digital possui intrinsecamente. Potencialidade de ampliar a fluidez e a acumulação no sistema.

Assim, finanças e tecnologia se entrelaçaram e explicam a dominância da primeira e a hegemonia da segunda. Não há como estudar os processos de plataformização e dataficação sem compreender o imbricamento entre esses elementos e também o papel desempenhado pelo uso dos celulares e da internet móvel na sociedade contemporânea.

sexta-feira, outubro 31, 2025

Fintech Nubank supera Petrobras, Vale, Itaú, Bradesco, etc. em valor de mercado e expõe hegemonia financeira e plataformização

A fintech Nubank que há algum tempo tinha passado, os bancos tradicionais (privados e públicos) em valor de mercado, agora passa também a Petrobrás e a Vale, duas empresas da economia real, fora do circuito de intermediação financeira.

Em valores de mercado hoje, o Nubank chegou a US$ 77,43 bilhões, seguido do Itaú com US$ 74,7 bilhões. A Petrobrás tem hoje US$ 74,11 bilhões em valor de mercado. A Vale US$ 51,46 bilhões. Santander Brasil, US$ 43,25 bilhões. Bradesco US$ 34,25 bilhões. Banco do Brasil US$ 23,27 bilhões, cerca de 3 vezes menor que o Nubank. A CEF não é empresa S.A. e assim, não tem valor de mercado, mas tem patrimônio líquido de cerca de US$ 27,3 bilhões.

Bom lembrar que valor de mercado é a soma do valor das ações da empresa que possui capital aberto em bolsa de valores. E, normalmente, embute muito de especulação e do chamado capital fictício. O Brasil tem, hoje, o número extraordinário de 1.700 Fintechs. Em 2018 eram 503 e em 2021 já tinha avançado para 1.158 fintechs.

FinTech representa o acrônimo de "Finanças e Tecnologia" e reproduz, como pode ser visto com esses dados, o que venho chamando de hegemonia financeira que supera a economia da produção real com as conhecidas intermediações, títulos, ações, mercado de capitais e a presença crescente das gestoras dos fundos financeiros.

Esse imbricamento entre finanças e tecnologia realçam ainda o contexto do Tripé do capitalismo contemporâneo, sustentado na Digitalização/Dataficação; Financeirização/Hegemonia Financeira; sob o domínio da racionalidade neoliberal.

A Nubank surgiu em 2023 e hoje é a principal patrocinadora do Jornal Nacional da TV Globo, apesar de existir há 12 anos, ainda hoje, segue sem regulação, junto com as demais 1,7 mil Fintechs do país, porque o atual Congresso resiste em aprovar legislação nesse sentido. Razão pela qual apareceu nos esquemas de lavagem de dinheiro do PCC, junto dos fundos financeiros, nas investigações da Política Federal e Receita Federal que desbaratou esquemas que misturavam negócios ilegais com comércio legal.

Para terminar, fiz uma breve comparação sobre números de empregos entre essas companhias: Nubank: 8 mil funcionários, boa parte de pessoal de TI, já que é apenas um banco digital, sem uma agência física sequer. Seu pessoal de TI trabalha nos EUA, Canadá, Argentina e Uruguai e nos países latinos que tem atuação: México e Colômbia, além do Brasil.

A estatal Petrobras tem cerca de 191 mil trabalhadores, 41 mil diretos e 150 mil terceirizados. A Vale possui 64 mil trabalhadores diretos e 174 mil terceirizados. O Itaú tem 96 mil funcionários e o Bradesco possui 84 mil trabalhadores.

Muito me surpreende que uma realidade como essa seja pouco percebida e nem sempre avaliada no que significa a hegemonia financeira e sua forte relação com o poder político no Brasil.

Outra questão a ser observada é como a evolução da informatização bancária e do sistema financeiro no país, serviu de referência para boa parte do mundo e de certa forma é parte da gênese da expansão das tecnologias e plataformas digitais.

Segundo a Febraban, hoje 82% dos bancos no Brasil já usam Inteligência Artificial Generativa (GenIA). Alguns usam desde 2017, para avaliar riscos, migração de dados, segurança, inovação, aplicativos com os clientes e já avançaram no uso de blockchain e até computação quântica para negociar títulos.


PS.: Em 29 de julho de 2021, eu já havia alertado para as questões relativas às fintechs num texto em meu blog com o título: "Fintechs: não há “novo” na velha atividade de intermediação financeira", inclusive chamando a atenção não apenas de sua expansão, mas também do processo de digitalização das finanças e da urgente necessidade de regulação: Disponívem em:
https://www.robertomoraes.com.br/2021/07/fintechs-nao-ha-novo-na-velha-atividade.html

segunda-feira, outubro 06, 2025

Nº de matrículas em 2024 no Ensino Superior nos municípios fluminenses: interiorização, polos regionais, expansão da EaD e importância da ação estatal

O número total de matrículas na modalidade nas Instituições de Ensino Superior (IES) nos municípios fluminenses em 2024 em relação a 2023 subiu 2,38% chegando a 944.813 estudantes. Deste total, 440.695 matrículas estavam na modalidade presencial (-0,9% em relação a 2023) e 504.118 na modalidade Educação a Distância (EaD) que cresceu +5,1% no mesmo período.

O blog repete o que vem fazendo nos últimos anos ao divulgar os dados dos números de matrículas nos municípios fluminenses, a partir dos microdados do Inep-MEC, tabulados pelo professor José Carlos Salomão Ferreira, a quem o blog agradece pelo dedicado trabalho.


PS.: Clique sobre a imagem da tabela para ver em tamanho maior.



Redução de matrículas no presencial e crescimento de matrículas em EaD

O número de matrículas no Ensino Superior no ERJ na modalidade presencial vem caindo ano a ano, desde 2018, quando atingiu a 544.727 universitários, caindo em 2024 para 440.695 estudantes, um contingente de menos 104.032 matrículas presenciais nos municípios fluminenses.

Enquanto isso, nestes últimos anos aumentou-se o número de matrículas na modalidade EaD que no total no ERJ chegou a 504.118 estudantes, que também estão espalhados em mais municípios fluminenses. Em 2021, o número de matrículas em EaD no ERJ era de 355.633 estudantes. Ou seja, nos últimos em três anos, um crescimento de 148.485 matrículas ou 42% nas matrículas em EaD no ERJ.

A redução das matrículas na modalidade presencial só não foi maior porque em 2024 em relação ao ano anterior, as matrículas nas instituições públicas, subiram de 162.686 estudantes para 164.511 universitários. Ou seja, no geral pode-se dizer que o número de matrículas no Ensino Superior no ERJ, segue a média nacional e está crescendo por conta do número de estudantes em EaD, majoritariamente, nas instituições privadas.


Interiorização x metropolização das matrículas no ERJ

Dos 92 municípios fluminenses, só três não tem estudantes matriculados no Ensino Superior, pelo menos em EaD: Cambuci no Norte Fluminense, Duas Barras e São Sebastião do Alto.

Uma maioria de 50 municípios (54%) só possui matrículas em EaD, enquanto 39 municípios (42%) possuem ambas as modalidades de ensino. Entre os 39 municípios que possuem matrículas na modalidade presencial (em 2021 eram 40 municípios), 27 municípios (29%) possuem estudantes no ensino público e 12 municípios (13%) só possuem matriculas presenciais nas instituições privadas.

Olhando os dados desde 2003 observa-se que a interiorização da oferta de matrículas no ensino superior presencial se estabilizou. Em 2022 eram 40 municípios em 2024 em 39 municípios. Atualmente, a expansão da interiorização vem ocorrendo através da modalidade EaD que chegou a 50 municípios no ano de 2024.

Segue existindo uma grande concentração das vagas na capital fluminense. No ano de 2003, na modalidade presencial, haviam 260 mil de 420 mil matrículas na capital fluminense, equivalentes a 62%. Em 2021, a capital tinha 52,4% e em 2024 chegou a 51,5% do total de matrículas em todo o ERJ. Um percentual menor do que os 62% de duas décadas atrás, mas ainda alto, considerando que a relação entre a população da capital e de todo o ERJ é de 39%.

Ainda em relação à distribuição territorial das matrículas na modalidade presencial pelos municípios, identifica-se que o ERJ possui 8 (oito) municípios com mais de 10 mil matrículas: 1- Rio de Janeiro 227.180 matrículas; 2- Niterói 47.481 matrículas; 3- Nova Iguaçu 21.994 matrículas; 4 - Campos dos Goytacazes 17.172 matrículas; 5 - Volta Redonda 11.521 matrículas; 6- Duque de Caxias 11.117 matrículas; 7 – São Gonçalo 11.000 matrículas; 8 – Seropédica 10.182 matrículas.

Quase todos com reduções de matrículas presenciais nos últimos anos. Como se vê 6 destes 8 municípios estão na região metropolitana. Somadas as matrículas presenciais nestes 8 municípios, elas equivalem a 92% do total no ERJ (em 2022 essa relação era de 82%), evidenciando uma concentração ainda maior das matrículas na região metropolitana, em relação ao interior e demais polos regionais.


O peso e importância da ação estatal no Ensino Superior com pesquisa e extensão

Vale ainda resgatar esforço do governo federal no período Lula (1-2) e Dilma (1) que resultou na criação nas universidades públicas de mais 74 mil matrículas nos municípios fluminenses entre 2003 e 2020. Em números absolutos, as instituições públicas aumentaram de 82.057 matrículas em 2003 para 164.511 matrículas em 2024 no ERJ, com um crescimento em números relativos de 100% em duas décadas.

Oportuno ainda registrar que as matrículas no ensino superior nas instituições públicas (universidades e institutos) crescem ou se mantêm a despeito das crises econômicas, enquanto no setor privado o ciclo de recessão se refere imediatamente no número de matrículas, por conta da dificuldade de pagamento dos estudantes.

Além disso, vale observar que quase que apenas nas instituições públicas há investimentos e articulação (mesmo que em graus variados) às duas outras duas pernas do tripé que confere qualidade ao ensino superior: a pesquisa e a extensão, para além do ensino. No caso das instituições privadas são raros e pontuais os investimentos em projetos e programas de pesquisas e pós-graduação. Isso em todo o país e não apenas no caso do ERJ.


Polos de ensino superior no ERJ

Por fim, vale observar ainda 3 (treze) municípios-polos, com importância crescente no número de matrículas no Ensino Superior no ERJ que podem ser observados em três diferentes regiões: Metropolitana + Serrana (exceto Rio capital); Norte e Noroeste Fluminense + Baixadas Litorâneas; Sul Fluminense nas matrículas presenciais.

São municípios de porte médio que podem ser observados como polos regionais do ensino superior no ERJ. Cinco deles reforçam o peso da quantidade vagas na Região Metropolitana do estado, aumentando a centralização já existente com os 51,5% das matrículas do ensino superior na capital.

Vale observar que nos últimos anos há variações nestes números de matrículas por município, devido à presença majoritária de instituições públicas de ensino superior (que se mantém ou crescem), enquanto as instituições privadas perdem matrículas rapidamente. Primeiro com a crise econômica e Pandemia e também a expressiva expansão de EaD, basicamente adotada pelas instituições privadas como já foi observado.


Região Metropolitana + Serrana: 2024 (2020) – Exceto Rio (capital)

Niterói: 47.481 matrículas (52.527 matrículas em 2020) = -5.046 matrículas.
Nova Iguaçu: 21.994 matrículas (24.811 matrículas em 2020) = -2.817 matrículas;
Duque de Caxias: 11.117 matrículas (14.454 matrículas em 2020) = -3.337 matrículas;
São Gonçalo: 11.0000 matrículas (11.142 matrículas em 2020) = -142 matrículas;
Seropédica: 10.182 matrículas (11.855 matrículas em 2020) = -1.673 matrículas;
Petrópolis: 8.055 matrículas (9.961 matrículas em 2020) = -1.906 matrículas.


Região Norte e Noroeste Fluminense + Baixadas Litorâneas

Campos dos Goytacazes: 17.172 matrículas (18.050 matrículas em 2020) = -878 matrículas;
Macaé: 8.422 matrículas (9.509 matrículas em 2020) = -1.087 matrículas;
Cabo Frio: 7.294 matrículas (7.632 matrículas em 2020) = -338 matrículas;
Itaperuna: 7.043 matrículas (7.717 matrículas em 2020)= -674 matrículas.


Região Sul Fluminense

Volta Redonda: 11.521 matrículas (13.485 matrículas em 2020) = -1.964 matrículas;
Resende: 4.911 matrículas (6.594 matrículas em 2020) = -1.683 matrículas;
Barra Mansa: 2.630 matrículas (4.738 matrículas em 2020) = -2.153 matrículas.

Como pode ser visto na evolução de matrículas do ensino superior entre 2020 e 2024 nestes 13 municípios-polo, todos tiveram perdas de matrículas. Algumas perdas bem expressivas em números absolutos como no caso de três municípios da região metropolitana: Niterói (-5.046 matrículas), Duque de Caxias (-3.337 matrículas) e Nova Iguaçu (-2.817 matrículas).

O total de perda de matrículas entre 2020 e 2024 nesses 13 municípios-polo chega a 23.698 matriculas, número que certamente produz impactos nas economias regionais desses polos de ensino superior. As matrículas em EaD nas universidades privadas acaba sendo uma transferência de renda direta para as sedes das instituições.

Observa-se que as menores perdas são nos municípios com maior presença das instituições públicas. A crise de 2015-2017 + Pandemia e pressão do crescimento de EaD, simultaneamente, ou sequencialmente, são as causas. O crescimento de 42% nas matrículas em EaD nos últimos três anos também se tornou alternativa para os moradores dos municípios de menor porte e densidade populacional.

Os dados do Inpe-MEC permitem muitas outras leituras e análises além das estatísticas do número de matrículas presenciais e por EaD nos municípios, assim como a sua distribuição geográfica ao longo do tempo e do espaço no território do ERJ. Essa é a contribuição do blog para uma intepretação mais totalizante e menos específica que certamente exigirá que pesquisadores e autoridades em gestão educacional deverão fazer sobre a base dados e microdados do Censo do Ensino Suprior de 2025 do Inep-MEC.


Referência:
Postagem do blog em 30 de setembro de 2024. Em Campos, RJ, no ano de 2024, o nº de matrículas no Ensino Superior presencial se manteve estável, na faixa dos 17 mil universitários.Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2025/09/em-campos-rj-no-ano-de-2024-o-n-de.html